
Argumento: Brian Nelson
Com: Patrick Wilson, Ellen Page
Duração: 100 min
Review: Um dia, muito depois de ter ouvido falar dele, decidi ver Hard Candy. Conhecia à partida a permissa do filme e a suposta controvérsia à roda da história, bem como um conjunto de críticas que variam desde a aclamação de uma obra-prima ao rótulo de pior filme do ano e uma experiência a evitar a todo o custo. Muita referência a uma suposta cena que fará muito bom homem remexer-se desconfortavelmente na sua cadeira/sofá durante uns bons 20 minutos. Muita discussão na dinâmica e desenvolvimento das personagens e na interpretação dos actores.
Bem, Hard Candy é efectivamente um filme controverso, total e absolutamente sustentado pelas duas únicas personagens necessárias à história (nenhuma outra tem um tempo de antena superior a 2 minutos): as peripécias do primeiro e último encontro de um fotógrafo solitário com tendências implicitamente pedófilas com a não-tão-inocente rapariga de 14 anos com quem têm mantido contacto pela internet. A velha história dos perigos das chatrooms e a confiança com estranhos que nos querem conhecer pessoalmente é completamente pervertida quando damos por nós a pensar nos perigos de dar confiança e marcar encontros com os objectos adolescentes da nossa perversão. Não, não temos pena do fotógrafo giro que levou a menina para a sua casa onde as paredes estão decoradas com as fotos tiradas às suas modelos adolescentes e onde passa o primeiro interlúdio desse encontro a flirtar à grande e à francesa com a rapariga engraçada, jovial e curiosa. Porque, bem, se ele embarcou nesta situação, qualquer coisa não pode estar bem. Mas até ao ponto em que uma verdade feia é posta a descoberto pela força ou pela submissão, perguntamo-nos se esta rapariga não será completamente doida, para além de bastante sádica, e está apenas a ver aquilo que quer num simples homem inocente. E mesmo quando essa inocência é afinal estilhaçada e a perversão é exposta, não conseguirmos deixar de nos contorcer perante os 90 e tal minutos do inferno pessoal que é imposto a este homem pela sua suposta “vítima” (se nem temos direito a ver as fotos comprometedoras que “libertam a fera” de Page, como é possível compactuarmos com ela? É um puro caso de tentar separar um mal abstracto do o que está realmente a acontecer à frente do espectador, o que é bastante difícil).
Resumindo, na sua primeira incursão no cinema depois da experiência dos videoclips, David Slade apresenta-nos a história pouco comum (alarmantemente provinda do imaginário de Nelson, um senhor que até parece normal), sem dúvida com brilhantes interpretações de Page e Wilson (que sabe suplicar muito bem…) e minimamente envolvente e ritmada para manter o espectador interessado (graças a Deus pela ausência de diálogos compridos e sem sentido). É só que, apesar de ser culpada por gostar dos filmes que à partida são controversos e perturbadores, tenho a sensação de que se não fossem as cenas mais hard-core (como a da cirurgia caseira e o “pós-operatório” revelador) e as cenas climáticas (a última conversa no telhado), não haveria muito de Hard Candy que ficasse connosco depois de o vermos.
