[CINEMA] Review - Hard Candy

25 de outubro de 2010 à(s) 16:46

Realização: David Slade
Argumento: Brian Nelson

Com: Patrick Wilson, Ellen Page

Duração: 100 min


Review: Um dia, muito depois de ter ouvido falar dele, decidi ver Hard Candy. Conhecia à partida a permissa do filme e a suposta controvérsia à roda da história, bem como um conjunto de críticas que variam desde a aclamação de uma obra-prima ao rótulo de pior filme do ano e uma experiência a evitar a todo o custo. Muita referência a uma suposta cena que fará muito bom homem remexer-se desconfortavelmente na sua cadeira/sofá durante uns bons 20 minutos. Muita discussão na dinâmica e desenvolvimento das personagens e na interpretação dos actores.


Bem, Hard Candy é efectivamente um filme controverso, total e absolutamente sustentado pelas duas únicas personagens necessárias à história (nenhuma outra tem um tempo de antena superior a 2 minutos): as peripécias do primeiro e último encontro de um fotógrafo solitário com tendências implicitamente pedófilas com a não-tão-inocente rapariga de 14 anos com quem têm mantido contacto pela internet. A velha história dos perigos das chatrooms e a confiança com estranhos que nos querem conhecer pessoalmente é completamente pervertida quando damos por nós a pensar nos perigos de dar confiança e marcar encontros com os objectos adolescentes da nossa perversão.
Não, não temos pena do fotógrafo giro que levou a menina para a sua casa onde as paredes estão decoradas com as fotos tiradas às suas modelos adolescentes e onde passa o primeiro interlúdio desse encontro a flirtar à grande e à francesa com a rapariga engraçada, jovial e curiosa. Porque, bem, se ele embarcou nesta situação, qualquer coisa não pode estar bem. Mas até ao ponto em que uma verdade feia é posta a descoberto pela força ou pela submissão, perguntamo-nos se esta rapariga não será completamente doida, para além de bastante sádica, e está apenas a ver aquilo que quer num simples homem inocente. E mesmo quando essa inocência é afinal estilhaçada e a perversão é exposta, não conseguirmos deixar de nos contorcer perante os 90 e tal minutos do inferno pessoal que é imposto a este homem pela sua suposta “vítima” (se nem temos direito a ver as fotos comprometedoras que “libertam a fera” de Page, como é possível compactuarmos com ela? É um puro caso de tentar separar um mal abstracto do o que está realmente a acontecer à frente do espectador, o que é bastante difícil).

Resumindo, na sua primeira incursão no cinema depois da experiência dos videoclips, David Slade apresenta-nos a história pouco comum (alarmantemente provinda do imaginário de Nelson, um senhor que até parece normal), sem dúvida com brilhantes interpretações de Page e Wilson (que sabe suplicar muito bem…) e minimamente envolvente e ritmada para manter o espectador interessado (graças a Deus pela ausência de diálogos compridos e sem sentido). É só que, apesar de ser culpada por gostar dos filmes que à partida são controversos e perturbadores, tenho a sensação de que se não fossem as cenas mais hard-core (como a da cirurgia caseira e o “pós-operatório” revelador) e as cenas climáticas (a última conversa no telhado), não haveria muito de Hard Candy que ficasse connosco depois de o vermos.


Raquel Pereira

[CINEMA] Review - Brothers Bloom (Irmãos Bloom)

1 de outubro de 2010 à(s) 16:47


Realizador: Rian Johnson
Argumento: Rian Johnson
Com: Adrien Brody, M
ark Ruffalo, Rachel Weisz, Rinko Kikuchi
Duração: 114 min

Review: Irmãos Bloom conta a história de Stephen e Bloom, dois irmãos que desde cedo descobrem e exploram a sua vocação de vigaristas com grande sucesso: Stephen (Mark Ruffalo), o mais velho, como o mastermind por detrás de cada plano mirabolante que delineia como se de um romance russo se tratasse, e Bloom (Adrien Brody), o mais novo e a constante personagem das histórias de Stephen, representando o eterno anti-herói. Em conjunto com Bang Bang (Rinko Kikuchi), uma misteriosa mulher japonesa cuja forma de expressão, ao invés da fala, assenta numa enorme aptidão para explodir coisas, os irmãos viajam pelo mundo granjeando a sua reputação para a arte da vigarice. Quando Bloom atinge uma espécie de crise de perda de identidade ao ponto de não conseguir distinguir a sua vida real da das personagens que interpreta, decide desistir do negócio. No entanto, é convencido por Stephen a embarcar num último trabalho, tendo como alvo Penelope Stamp (Rachel Weisz), a bela, excêntrica e solitária herdeira de uma das propriedades mais ricas de New Jersey, fotógrafa epiléptica e coleccionadora dos mais variados hobbies. As únicas coisas que poderão estragar a “vigarice perfeita e derradeira” dos irmãos serão a sede de vingança do seu mentor e agora arqui-inimigo Diamond Dog, a imprevisibilidade de Penelope (definitivamente não a vítima usual) e a possibilidade de Bloom, que sempre deixou o amor passar ao lado da sua vida, se estar a apaixonar pela sua vítima.

Irmãos Bloom não é um mau filme. É aproximadamente duas horas de entretenimento que, para o espectador, se ficam pelos créditos finais e não vão muito mais além. Possui sem dúvida os seus pontos interessantes: a banda sonora é no mínimo genial, moderna numa história que se passa nos dias de hoje mas parece de outros tempos, e têm certamente os seus momentos de humor bem conseguidos (curiosamente devidos quase exclusivamente às mulheres do filme). Mas ganha muito mais pela movimentação do elenco pela história do que pelo próprio enredo, que chega a ser confuso no encadeamento e pouco perceptível na trama condutora. Rachel Weisz é sublime no seu papel, sempre com ar de menina bonita mas capaz de fazer malabarismo com motosserras a trabalhar, uma mulher desligada da realidade fora da sua grande mansão e dos seus hobbies que se vê numa aventura no mundo exterior tão excitante como uma ida à loja de doces. Quanto ao resto do elenco, Rinko Kikuchi mostra, mais uma vez, que não é preciso falar para se fazer notar no “palco” (e não só por causa do barulho das explosões) e Ruffalo apresenta-nos um papel competente com o swing suficiente de um vigarista nato. Menos palmas vão para Adrien Brody, que a mim me parece sempre num estado de quase-total passividade perante o que quer que esteja a acontecer.

No geral, Irmãos Bloom é uma tarde bem passada que não temos muita tendência a comentar e recordar para a posterioridade, mas é mesmo assim um filme bastante agradável para ser visto por todos e mais alguns.


Raquel Pereira