Autor: Mary Roach
Editora: Penguin
Páginas: 304
A curiosidade para ler Stiff: The Curious Lives of Human Cadavers (ou A Vida Misteriosa dos Cadáveres – um titulo que soa bem melhor no original, ao estilo Benjamin Button…) surgiu da análise de uma de muitas listas de livros que supostamente devemos ler antes de morrer. A premissa de uma viagem pelas várias utilizações de cadáveres humanos despertou a minha curiosidade mórbida (todos a temos, não duvidem) para ler o livro de Roach, a minha primeira incursão pela não-ficção.
Primeiro que tudo, há que tirar o chapéu a Mary Roach, que (lá está) tem curiosidade mórbida a rodos, no seu caso bastante acentuada, dada a sua longa pesquisa pelos meandros do mundo científico à descoberta das muitas histórias protagonizadas por cadáveres pelo mundo fora. E claro, há ainda que admirar o estômago forte que lhe permite assistir contentemente a muitas dessas situações no meio do palco onde se desenrolam, ainda que como espectadora, sem qualquer pudor para fazer as perguntas mais incómodas. Com uma capacidade de escrita e uma veia de humor negro que consegue manter-nos acordados (e interessados) perante o relato de puros factos científicos (com especial atenção a notas de rodapé impagáveis, às quais damos graças pelos devaneios da autora que muitas vezes não estão propriamente relacionados com o tema…), Roach apresenta-nos a “juicy stuff”, os pormenores sórdidos, os mitos e os factos em volta do processo de decomposição humana, das experiências de dissecação e o roubo de sepulturas, dos testes de automóveis e de balística, da doação de órgãos e transplantação, da utilização medicinal de partes humanas (sim, canibalismo!) e das várias opções para o último local de descanso dos nossos “restos mortais”.
É claramente uma obsessão pouco comum e acabo por me questionar se Roach será totalmente normal (ela própria chega a referir algumas reacções constrangedoras ao tema), mas quem sou eu para julgar se comprei e li o livro de livre e espontânea vontade? Stiff é provavelmente o livro que mais me levou a fazer caretas de repugnância para as páginas, mas é capaz de ser um dos mais interessantes livros de não ficção que virei a ler. Para qualquer pessoa que o deseje saber (e cuidado com o que se deseja), este livro é como que uma brochura para o futuro do nosso querido cadáver: doação à ciência? Um enterro ecológico? Plastinação? Está tudo aqui ao vosso dispor, para o bem ou para o mal.
Raquel Pereira
