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[LIVROS] Review - Haunted

26 de janeiro de 2011 à(s) 14:18
Autor: Chuck Palahniuk
Editora: Vintage
Páginas: 404


Sinopse: Dezassete pessoas respondem a um anúncio intitulado: “Retiro para Artistas: Abandone a sua vida por 3 meses.”, uma promessa de afastamento das distracções da”vida real” e da influência da sociedade que até agora impediram estas pessoas de criar a obra-prima literária que existe dentro de cada uma delas. Mas este retiro idílico revela-se afinal um completo isolamento do mundo exterior num velho e cavernoso teatro-museu onde os mantimentos, especialmente a comida, vão escasseando a uma velocidade alarmante. E quanto mais desesperadas as circunstâncias se tornam, mais desesperadas são as histórias que estas pessoas contam e mais tortuosas são as suas maquinações para aumentar o seu sofrimento e assim se tornarem os heróis da peça de teatro/filme/documentário que certamente será realizado após o seu salvamento.

Review: A própria dinâmica deste livro é única: cada capítulo do livro engloba um capítulo da narrativa principal (contada por um narrador desconhecido), um poema sobre uma das personagens no retiro (de autoria desconhecida) e uma história contada por essa personagem, que se conecta com a narrativa principal de alguma forma. O retiro é muitas vezes comparado (embora com consequências incomparavelmente mais desastrosas) a um outro ocorrido na Villa Diodati em 1816, uma mansão na Suiça e alegada residência temporária de Verão de escritores como Lord Byron e Mary Shelley, entre outros, e o berço de várias histórias clássicas de terror como “Frankenstein” e “The Vampire”.

Tal como é dito na contra-capa, Haunted é uma história feita de histórias: 23 das histórias mais terroríficas, hilariantes, alucinantes e repugnantes jamais escritas. Autobiográficas ou meros relatos de acontecimentos a outras pessoas, estas histórias correm um vasto leque de temas e acabam por pervertê-los na narrativa muito pouco inofensiva que apresentam, pela forma como são contadas e principalmente pelos seus conteúdos, que de tão inverosímeis mais parecem inventados…Só que nem todos, pelo menos, o são. Haunted é principalmente conhecido pela short-story “Guts”, a primeira das 23, um conto sobre três violentos acidentes envolvendo actos de masturbação. Segundo o autor, todos os três acidentes são baseados em histórias verídicas. Durante a promoção de livros anteriores, as leituras para o público desta short-story resultaram, nas próprias palavras do escritor, em 73 desmaios na audiência com consequências ligeiramente incómodas, número que continua a aumentar graças a leituras em voz alta de outros leitores para os amigos. E esta não será a mais sombria e perturbante das histórias…

Por outro lado, a história principal não lhes fica atrás. A medida que a narrativa evolui e os três meses passam, vamos assistindo a uma perversão cada vez maior das pessoas aprisionadas, uma luta desesperada de cada personagem pelo alcance de um patamar de sofrimento o mais atroz possível, da simples privação de calor, luz e comida à auto-mutilação, ao assassínio e ao canibalismo, tudo numa tentativa de alcançar a fama na partilha da sua provação com o mundo e sempre atribuindo a culpa das suas atrocidades a uma entidade demoníaca que tanto é incarnada pelo organizador do retiro como pela sua assistente.

Mais que os sentimentos de repugnância, surpresa e espanto que as short-stories me despertaram, o que mais me afecta neste livro acaba por ser as convicções que estas pessoas têm, a ânsia com que correm para o cadafalso, a sua vontade em degradarem a vida e o corpo em nome do reconhecimento social. Apesar de criarem a figura demoníaca que os torturou no retiro durante 3 meses, na verdade tornaram-se eles próprios os demónios. É obvio que estas pessoas estão loucas, insanas. Mas estão conscientes e, por qualquer motivo retorcido perderam qualquer sentido de auto-sobrevivência que faz com que, na minha opinião, o leitor reze para que nunca sejam salvas e morram sozinhas com as suas acções. É, no fundo, a forma habilidosa e provocadora como Palahniuk escreve, que mexe sempre com leitor quer ele queira quer não e que fica cravada nas nossa mente.
Raquel Pereira

[LIVROS] Review - Stiff: The Curious Lives of Human Cadavers

16 de novembro de 2010 à(s) 21:45

Autor: Mary Roach
Editora: Penguin
Páginas: 304

A curiosidade para ler Stiff: The Curious Lives of Human Cadavers (ou A Vida Misteriosa dos Cadáveres – um titulo que soa bem melhor no original, ao estilo Benjamin Button…) surgiu da análise de uma de muitas listas de livros que supostamente devemos ler antes de morrer. A premissa de uma viagem pelas várias utilizações de cadáveres humanos despertou a minha curiosidade mórbida (todos a temos, não duvidem) para ler o livro de Roach, a minha primeira incursão pela não-ficção.

Primeiro que tudo, há que tirar o chapéu a Mary Roach, que (lá está) tem curiosidade mórbida a rodos, no seu caso bastante acentuada, dada a sua longa pesquisa pelos meandros do mundo científico à descoberta das muitas histórias protagonizadas por cadáveres pelo mundo fora. E claro, há ainda que admirar o estômago forte que lhe permite assistir contentemente a muitas dessas situações no meio do palco onde se desenrolam, ainda que como espectadora, sem qualquer pudor para fazer as perguntas mais incómodas. Com uma capacidade de escrita e uma veia de humor negro que consegue manter-nos acordados (e interessados) perante o relato de puros factos científicos (com especial atenção a notas de rodapé impagáveis, às quais damos graças pelos devaneios da autora que muitas vezes não estão propriamente relacionados com o tema…), Roach apresenta-nos a “juicy stuff”, os pormenores sórdidos, os mitos e os factos em volta do processo de decomposição humana, das experiências de dissecação e o roubo de sepulturas, dos testes de automóveis e de balística, da doação de órgãos e transplantação, da utilização medicinal de partes humanas (sim, canibalismo!) e das várias opções para o último local de descanso dos nossos “restos mortais”.

É claramente uma obsessão pouco comum e acabo por me questionar se Roach será totalmente normal (ela própria chega a referir algumas reacções constrangedoras ao tema), mas quem sou eu para julgar se comprei e li o livro de livre e espontânea vontade? Stiff é provavelmente o livro que mais me levou a fazer caretas de repugnância para as páginas, mas é capaz de ser um dos mais interessantes livros de não ficção que virei a ler. Para qualquer pessoa que o deseje saber (e cuidado com o que se deseja), este livro é como que uma brochura para o futuro do nosso querido cadáver: doação à ciência? Um enterro ecológico? Plastinação? Está tudo aqui ao vosso dispor, para o bem ou para o mal.

Raquel Pereira

[LIVROS] Review - The Black Angel

11 de agosto de 2010 à(s) 00:25

Autor: John Connolly
Editora: Hodder
Páginas:
596

Sinopse: Charlie Parker é um investigador privado que vive assombrado pela morte da mulher e da filha às mãos de um serial-killer e pelo sentimento de culpa perpétuo em relação a todas as vítimas, incluindo a sua família, que não conseguiu salvar. Apesar de ter reconstruído a sua vida familiar, este precário equilíbrio é posto em causa perante o desaparecimento e possível homicídio da prima do seu melhor amigo e companheiro de negócios, uma jovem prostituta das ruas de Nova Iorque que se vê no sítio errado à hora errada. Parker junta-se à investigação empreendida pelo seu colega Louis para encontrar o seu ente querido e vingar a sua possível morte. O caminho que vão percorrer levá-los-á ao encontro de uma lenda sobrenatural e a busca por um artefacto mítico de natureza demoníaca, levada a cabo por uma “organização secreta” liderada pela assustadora e inumana figura de Brightwell e que não olha a meios para atingir os seus fins, por mais brutalidade e devastação que seja necessária.


Review: Infelizmente só quando já ia quase a meio deste livro é que me apercebi que ele não só fazia parte de uma série literária como constituía um dos seus últimos tomos. Felizmente, apercebi-me também que a leitura sequencial não é propriamente uma obrigação no género policial (à parte a ocasional referência passada cujos pormenores nos escapam) e, quando muito, decerto me despertou a curiosidade para ler pelo menos o primeiro dos livros – Every Dead Thing – que constitui a génese do percurso futuro da personagem principal e que, aparentemente, é o melhor ponto de partida para começar a descobrir a série Charlie Parker ou mesmo a obra total de Connolly.

Como policial, The Black Angel cumpre os seus requisitos de acção, mistério e suspence, para além de uma quantidade razoável de sangue e ossos, juntando uma componente sobrenatural com a já comum ligação religiosa, ainda que os fanáticos neste caso sejam maléficos com M maiúsculo e aparentemente muito pouco humanos.

Ainda que, na minha opinião, o livro em si não seja propriamente arrebatador, possui um ritmo interessante e cativante e uma linguagem fluida (mesmo em inglês), muito ao jeito dos brilhantes Vista pela Última Vez (Gone Baby Gone) e Prenúncio de Chuva (Prayers for Rain) de Dennis Lehane, até com uma certa sobreposição no heróis-detectives-privados de ambas as histórias, se bem que Parker seja infinitamente mais atormentado.

Outros pontos interessantes são a própria lenda que dá origem ao título do livro, e todos os indivíduos a ela ligados desde a sua criação até ao presente, criando o pano de fundo sobrenatural para uma investigação brutalmente real, e o cenário do showdown final (o Ossuário de Sedlec), deslumbrante e magnificente mas completamente sinistro e perturbador na sua essência, que, sim, existe mesmo.

Raquel Pereira

[LIVROS] Review - Este País Não é Para Velhos

18 de julho de 2010 à(s) 00:06
Autor: Cormac McCarthy
Título original: No Country for Old Men
Editora: Relógio D'Água
Páginas: 310 (no original)

Sinopse: Llewellyn Moss encontra uma carrinha cheia de cadáveres, um carregamento de heroína e dois milhões de dólares no banco de trás. Quando pega no dinheiro, dá início a uma cadeia de reacções de violência catastrófica que nem a lei pode controlar.

Opinião: “Este país não é para velhos” é um caso interessante de literatura. Cormac McCarthy não revolucionou o estilo policial/western mas fez questão de meter lá dentro todos os ingredientes para tornar este livro uma experiência especial conseguindo misturar, com excelência, o melhor do policial com o melhor do drama. A história gira à volta de Llewelyn Moss, um homem do campo que encontra uma mala com 2 milhões de dólares, despojos do tráfico de droga na fronteira do Texas com o México, e da sua fuga de Anton Chigurh, um assassino que tudo fará para ver Moss morto. Dentro deste âmbito da história não existe nada particularmente novo e o grande destaque vai mesmo para Chigurh que muito mais que o mau da fita é uma força do mal, insaciável e imparável, um ser psicopata amoral que representa todos os demónios que habitam aquelas terras áridas.

No outro lado do espectro encontramos o Xerife Bell, um veterano da II Guerra Mundial em luta constante com a modernidade. No inicio de cada capitulo o autor apresenta um monólogo de Bell em que este narra, de forma resignada, a sua impossibilidade em acompanhar os tempos modernos. É aqui que este livro é maior, na luta impossível de um homem velho e derrotado contra um mal que não conhece barreiras e contra o qual não possui quaisquer armas.

Este é o primeiro livro que li deste autor e não tinha qualquer ideia do que me esperava quando o comecei a ler, sabia apenas que o filme tinha ganho o Óscar para melhor filme, mas fiquei positivamente surpreendido. É um livro rápido, com bastante acção, mas também com personagens apuradas e diálogos com significado, agarrando o leitor desde a primeira página e só largando no final. A escrita é simples e eficaz como se pretende neste tipo de livros mas muito inteligente, e existe um excelente equilíbrio entre as cenas de acção e as partes mais dramáticas, deixando o leitor constantemente a querer saber o que vai acontecer a seguir. Fiquei muito contente com o livro e estou bastante ansioso por ler mais livros deste autor. O próximo será “A Estrada”, vencedor do prémio Pulitzer de 2007.

Uma pequena nota em relação à adaptação ao cinema do livro pelos irmãos Cohen. O filme é muito interessante e conta com grandes intrepertações, especialmente Javier Bardem que brilha na personagem de Chigurh. Muitas das cenas, especialmente no inicio são quase que uma fotocópia do livro, mas infelizmente foca-se principalmente na fuga de Llewelyn e na sua luta contra Chigurh, sendo que os monólogos de Bell foram praticamente omitidos e por isso a personagem está quase suprimida, não sendo tão forte o sentimento de impotência deste a realidade actual. Penso que se não tivesse lido o livro teria achado o enredo substancialmente mais interessante, mas de qualquer forma recomendo, especialmente para quem já tenho lido.


Mário Barroso

[LIVROS] Review - Clube de Combate

23 de junho de 2010 à(s) 22:09

Autor: Chuck Palahniuk

Título Original: Fight Club (1996)
Editora: Vintage
Páginas: 208

Sinopse: As experiências de um protagonista anónimo, um zé-ninguém com uma vida perfeitamente insignificante como funcionário de uma empresa de automóveis, responsável por determinar se a recolha de produtos defeituosos apresenta uma relação custo-benefício mais positiva que o aumento da taxa de mortalidade por acidentes de viação de "causa desconhecida". Uma identidade imposta pelo trabalho,um consumo obsessivo de mobília sueca e uma vida quase completamente passada a bordo de aviões em viagens de negócios, levam este homem a um estado de jet lag perpétuo e insónia aparentemente incurável. Inspirado pela opinião desesperada e algo irónica do seu médico, acaba por encontrar o alívio que procura na personificação de doente moribundo em vários grupos de apoio de doentes, onde descobre que ouvir as histórias dramáticas e chorar nos braços dos seus companheiros é a cura perfeita para semanas e semanas de insónia.
Pouco tempo depois, conhece Tyler Durden, um carismático individuo, anarco-niilista e com um ódio de morte à sociedade do consumo, ao materialismo e ao capitalismo. Juntos criam o Clube de Combate (Fight Club), sociedade underground e supostamente secreta onde homens de todas as classes sociais abdicam da sua identidade (e dinheiro) para passarem 5 horas a darem cabo uns dos outros à porrada, segundo um conjunto de regras que todos seguem religiosamente. Uma sociedade rapidamente tornada um culto á escala nacional e que rapidamente descamba em ataques cada vez mais elaborados à América corporativa, com o objectivo de destruição da civilização moderna como a conhecemos.


Review:
Segundo o autor, antes de todo o culto real à roda do livro, antes da estreia do filme (realizado por David Fincher e protagonizado por Brad Pitt e Edward Norton, numa fiel adaptação da história), antes da criação de Clubes de Combate ilegais nos EUA, no Brasil e pelo mundo fora, antes da apresentação do "look fight club" na colecção da Versace e D&G, antes dos jovens mudarem legalmente o seu nome para Tyler Durden, antes das conferências académicas para o estudo do livro na Universidade da Pensilvânia, antes do assédio do autor por editores de revistas e jornais que prentendiam encontrar o Clube de Combate mais próximo e para lá enviar um reportér infiltrado, antes do assédio do autor por editores de revistas e jornais a desancá-lo por afirmar que os Clubes de Combate não passavam de ficção, antes do frigorífico do autor estar completamente coberto de fotografias enviadas por fãs sorridentes de caras esmurradas e manietando amigos em ringues de boxe nos quintais de sua casa, antes de milhares de cartas de agradecimento por uma história que levou filhos/maridos/alunos a voltar a ler ou de desagrado pela invenção prévia de Clubes de Combate.........antes de tudo isto, Fight Club era apenas uma short-story de 7 páginas (publicada na compilação The Pursuit of Happiness e actualmente correspondente ao 6º capitulo do livro), inspirada numa luta num acampamento de Verão: apesar do olho negro e inchado, nenhum dos colegas de trabalho do autor lhe perguntou o que acontecera e este percebeu que basicamente "podes fazer qualquer coisa na tua vida privada, desde que te deixe tão ferido e marcado que ninguém queira saber os pormenores". O conceito surgia para colmatar a falta de "um novo modelo social para que os homens, exclusivamente, se reunissem e estivessem juntos e partilhassem as suas vidas, com uma estrutura, com papeis, com regras e tarefas, mas nada muito lamecha".


Para a reedição de Fight Club na forma de livro singular, Chuck adicionou à short-story as histórias dos amigos, desde a introdução de imagens subliminares de pornografia por entre os frames dos filmes da Disney à adulteração da comida de restaurantes requintados com temperos menos próprios e demasiado "pessoais". Na minha opinião, a combinação resulta numa leitura deveras interessante e tão estimulante para os que já tinham visto o filme como para os que nunca o viram, com situações bem humorísticas (ainda que de uma forma um bocado retorcida) e genialmente tresloucadas, e pérolas de conhecimento imperdíveis como como fazer nitroglicerina, como fazer napalm, como nunca devemos confiar num empregado de mesa, projector de cinema ou fabricante de sabonetes com olhos negros e dentes partidos, e por aí fora....E, último conselho, lê-lo na língua original é tão melhor de certeza absoluta.....


Raquel Pereira

[LIVROS] Dia Mundial do Livro

23 de abril de 2010 à(s) 17:23


Em 1995 a UNESCO decidiu instaurar o dia mundial do livro e dos direitos de autor no dia 23 de Abril. O dia foi escolhido pelo seu significado para o mundo literário; na Catalunha comemora-se o Dia de São Jorge em que os homens oferecem rosas às suas amadas, que lhes oferecem um livro em troca. O dia de 23 de Abril marca também o nascimento e morte de William Shakespear, a morte de Miguel de Cervantes, Inca Garcilaso de la Vega e Josep Pla, e ainda o nascimento de Maurice Druon, Vladimir Nabokov, Manuel Mejía Vallejo e Halldór Laxness.


Não sou um enorme fã desta moda dos dias mundiais de tudo e mais alguma coisa, mas também não custa chamar a atenção para este Dia Mundial do Livro já que, cada vez mais, vivemos numa sociedade que pouca ou nenhuma importância dá à literatura, especialmente à boa literatura. Muita coisa pode ser dita sobre livros e os hábitos de leitura dos portugueses. No entanto aquilo que eu sinto é que muitas vezes falta a vontade de “pegar o touro pelos cornos” no que toca à questão do porquê de cada vez se ler menos. Sem, obviamente, possuir o tempo e a informação para abordar o assunto na sua globalidade vou apenas focar-me um pouco nas desculpas, muito pouco convincentes, que se costuma ouvir nas televisões e ler nas revistas para que os portugueses, em especial os jovens, não comprem livros e não tenham hábitos de leitura saudáveis.


O preço dos livros:
É verdade os livros são demasiado caros, e muitas vezes dar mais de 20 euros por um livro, especialmente para as famílias mais pobres seja um sacrifício ou mesmo uma impossibilidade. Mas será que os livros são assim tão caros que tal facto justifique, como tanta vez se ouve, o seu total abandono? Na minha opinião, dificilmente. Primeiro temos de ver que nem todos os livros custam 20 euros, existem livros na casa dos 12 euros, e se entrarmos no campo dos livros de bolso podemos encontrar alternativas por aproximadamente 5 euros. Ainda que limitados pela barreira linguística, os livros de importação podem constituir boas alternativas devido aos seus preços bastantes reduzidos (como já foi discutido num post anterior). Outro dos factores que se deve ter em conta é a existência de feiras e pequenas lojas que vendem livros em 2ª mão, obviamente por preços mais reduzidos. O que mais me chateia em relação a este assunto é o facto de muitas vezes nem serem as pessoas menos abastadas que se queixam do preço dos livros. Fica à consciência de cada um decidir se é melhor gastar 6 euros num livro de bolso ou numa vodka laranja numa discoteca. É obvio que eu gostava que os livros fossem mais baratos, especialmente para os jovens, mas como desculpa para não se ler parece-me muito pouco sólido.

Acesso a bibliotecas
A dificuldade de acesso a bibliotecas é uma queixa bastante frequente, e no que toca às populações mais isoladas das grandes cidades é um argumento, infelizmente, válido. Nos meios urbanos a questão é bastante diferente. Não me querendo alargar muito no assunto visto que não tenho grande experiência no campo das bibliotecas, aquilo que eu sei, é que vivo relativamente perto de 3 bibliotecas, e a menos de uma hora de comboio de outras tantas. Portanto não me parece que a maioria das pessoas tenha grande razão de queixa. Além disso a maioria (senão mesmo todas) as escolas têm uma biblioteca. Li no outro dia alguém que dizia que um dos grandes problemas das bibliotecas escolares é que estavam limitadas aos livros mais “clássicos” e que isso afastava os jovens que não se interessavam. Honestamente o único pensamento que eu tenho em relação a este tipo de argumentos é algo do género: se os jovens tivessem gostos de leitura isso implicava que gostariam de ler livros de qualidade, e como os “clássicos” são livros de qualidade, logo eles teriam vontade de ler os livros da biblioteca. Talvez eu esteja completamente errado e todos os “miúdos” devessem ter nas bibliotecas o mais recente livro do Capitão Cuecas.

Falta de Incentivos em casa
Mais uma vez é uma constatação triste; a geração dos nossos pais e avós, na generalidade não tem gostos de leitura nem incentiva ou incentivou os seus filhos/netos a ler. Para as mentes que acham que isto faz um sentido tremendo lamento informar que conheço alguns leitores ávidos cujos pais pouco ou nada lêem, e conheço os que vivem rodeados de livros em casa e não demonstram qualquer interesse. Não vou negar que possa ter alguma influência, mas assumir o argumento como crucial, implica dizer que o ambiente familiar é absolutamente determinante dos gostos do indivíduo e que o mesmo não apresenta livre arbítrio. Se tal argumento fosse válido, e portanto assumissemos o determinismo, seria de esperar que qualquer adolescente gostasse da mesma música que os pais e que os videojogos, por exemplo, não teriam grande expressão.

Falta de Incentivos na Escola
E isto é especialmente preocupante por ser uma realidade, já que nas nossas escolas pouco ou nada se incentiva a ler. Ainda mais triste é que quando se pede para ler, a avaliação dessa mesma leitura é sempre no sentido de ver se o indivíduo conseguiu memorizar uma série de conceitos, mesmo que não os perceba; o espírito crítico é sempre deixado para segundo plano. Como é que é possível dar poesia a ler a alguém e a seguir dizer que agora tem de memorizar as directrizes do ministério para a interpretação daquele texto (quem diz poesia diz qualquer outro texto). Onde é que está o espírito crítico? O poder interpretativo? E depois queixam-se que os alunos são “quadrados de pensamento”. A razão pela qual acho que este argumento não pode ser usado como definitivo, sem nunca negar a sua importância, é que todos os jovens passam pelo mesmo sistema de ensino; se estivéssemos a falar de um factor determinante seria de esperar que nenhum jovem se interessasse pela leitura. No entanto deve salientar-se que, felizmente, existem muitos bons professores de português por essas escolas, que todos os dias se esforçam para mudar este triste panorama, e que merecem todo o respeito.


Então afinal qual é o problema? Porque é que existem tão poucos leitores, especialmente na camada mais jovens? Como já referi não tenho uma resposta definitiva, tenho apenas a minha opinião. Primeiro é de constatar que os argumentos que refutei em cima têm o seu peso no processo, e como tal não podem, nem devem, ser ignorados, mas, também não podem ser vistos como definitivos. Segundo, acho que o problema principal é o desinteresse geral da sociedade, que não exige que os indivíduos tenham bases culturais para que se possam comportar dentro da sociedade e escalar na hierarquia social. Infelizmente vivemos num país onde apenas se exige apenas a mediocridade, em que decorar uma série de conceitos sem os perceber é suficiente para se subir na vida. Os indivíduos valorizam apenas aquilo que lhes oferece benefícios sociais ou pequenos prazeres acéfalos, por isso preferem ver coisas como telenovelas em vez de ler livros ou de experiemntar outra forma de cultura. Os níveis baixos de vendas de livro e de bons hábitos de literatura não são a doença, são um sintoma de algo muito maior, de um país culturalmente decadente e sem objectivos, de um sistema de ensino fraco e de uma sociedade fútil.
Mário Barroso



[LIVROS] 80ª Feira do Livro de Lisboa

11 de abril de 2010 à(s) 12:40
A 80ª Feira do Livro de Lisboa abre portas este ano no dia 29 de Abril, no Parque Eduardo VII, e estende-se até 16 de Maio. Este ano a feira integra 120 editoras distribuídas por 237 pavilhões, contando com debates e mesas redondas, que decorrerão às 18.30 horas nos dias úteis e às 17.30 horas aos fins-de-semana e feriados, e ainda música ao vivo todos os dias às 21.30h. De segunda a sexta a feira abre as 12.30 e encerra às 23.30, aos sábados, domingos e feriados abre às 11.00 horas e encerra às 23.30.

Mais informação será divulgada quando se encontrar disponível.

[LIVROS] Jodi Picoult

2 de abril de 2010 à(s) 20:14

(Isto não é um despique, juro…) Mais uma autora que todos devem conhecer, a minha favorita de sempre;

Jodi Picoult nasceu e foi criada em Long Island, tendo-se mudado para o estado de New Hampshire quando tinha 13 anos. A sua primeira história, escreveu-a aos 5 anos de idade, um conto intitulado The Lobster Wich Misunderstood.

Estudou escrita criativa na Universidade de Princeton, altura em que publicou duas short-stories na revista Seventeen. Apesar da toda a criatividade, as dificuldades do mundo real levaram-na a uma série de ocupações diferentes depois de obter a graduação (onde aplicava os seus conhecimentos literários) tendo trabalhado numa correctora em Wall Street, numa agência de publicidade, numa editora e ainda como professora de Inglês do 8º ano; tudo isto antes de tirar um mestrado em Educação na Universidade de Harvard.

O seu primeiro livro, Songs of the Humpback Whale, foi escrito durante a gravidez do primeiro dos seus três filhos, tendo sido publicado no ano de 1992; a partir daí, publicou um romance diferente quase todos os anos, ao mesmo tempo que criava a família (filhos e animais de estimação incluídos) em Hanover (no New Hampshire) e ainda arranjava tempo para responder aos inúmeros pedidos de aparições públicas para promoção dos seus livros.

Escreveu dezassete romances até à data (na sua maioria bestsellers), desde Songs of the Humpback Whale ao seu mais recente House Rules, publicado este ano nos EUA. Alvos de uma longa lista de prémios, os seus livros estão traduzidos em 34 línguas diferentes, num total de 35 países. Em Portugal, já foram publicadas 9 traduções: O Pacto (The Pact), Tudo por Amor (Perfect Match), Uma Questão de Fé (Keeping Faith), Para a Minha Irmã (My Sister’s Keeper), Memórias Esquecidas (Vanishing Acts), O Décimo Circulo (The Tenth Circle), Dezanove Minutos (Nineteen Minutes), Frágil (Handle with Care) e Em Troca de Um Coração (Change of Heart), tendo estes três últimos atingido o nº 1 na lista de bestsellers do New York Times no seu pais de origem.
A par dos romances dramáticos que lhe granjearam o sucesso e o enorme reconhecimento mundial, foi autora de cinco edições da série de banda desenhada Wonder Woman, da DC Comics.

No campo das adaptações cinematográficas, três dos seus livros – The Pact, Plain Truth e The Tenth Circle – foram retratados no pequeno ecrã televisivo; My Sister’s Keeper deu origem ao filme com o mesmo nome realizado por Nick Cassavetes e contando com Cameron Diaz, Alec Baldwin e Abigail Breslin nos principais papéis, que estreou o ano passado nos cinemas portugueses (a titulo de curiosidade, o filme terá gerado polémica à volta do final distinto do do livro, o que arruinou a película a muito bom fã, que inclusive escreveu à autora a perguntar o porquê de ter permitido a destruição da história. Jodi afirmou que as alterações do guião em relação ao livro não eram da sua responsabilidade e que, apesar disso, o filme ganhava pelas boas interpretações dos seus actores e pela grande carga emocional retratada, que faziam daquela uma belíssima história; também terá recomendado a compra de uma caixa de Klennex aos mais sensíveis…).


Alguns artigos salientam a forma quase clarividente com que Jodi situa as suas histórias mesmo no meio dos dilemas morais que são a génese dos debates nacionais de hoje em dia; a sua carreira tem por base uma ficção que, apesar de obviamente fictícia, parece saltar directamente das discussões dos talk-shows e das “letras gordas” dos jornais. Aos 38 anos, quando muito bom autor está ainda a lançar o seu primeiro livro, Jodi já tinha publicado 12, todos livros que lidam com os principais “assuntos quentes” da nossa sociedade: desde a investigação de células estaminais ao suicídio na adolescência, passando pelo abuso sexual, o aborto, o incesto e a eutanásia.

Jodi não escreve à deriva; o seu trabalho assenta numa investigação intensa, com visitas a laboratórios médicos, conversas intermináveis com advogados e viagens a sítios remotos (apesar da maioria das tramas se situar no estado de New Hampshire, o lar da autora, por exemplo, The Tenth Circle desenrola-se em terreno mais inóspito, no Alasca). Segundo ela, esta é uma parte crucial do processo: é quando está profundamente embrenhada na pesquisa dos factos ou na condução de entrevistas que “ as luzes se acendem no seu cérebro, levando-a em novas direcções”.

Igualmente, Jodi tem um jeito com as palavras. Deixando de parte a minha capacidade inexperiente para a critica literária, (reconhecendo, obviamente, que não estamos perante uma escritora de génio, mas, sem dúvida uma boa escritora), é impossível não nos agarramos aos seus livros até nos esquecermos de tudo à nossa volta, só voltando à realidade quando é mesmo preciso ou bem…quando o livro acaba.
Há ali muitos elementos positivos: as reviravoltas inesperadas, a ironia das palavras e uma capacidade anormal para a chamada punch-line e para deixar o leitor na expectativa e a implorar por mais e mais. Isto mesmo sem contar com a história fenomenal e as personagens complexas e atractivas, marcadas quase sempre pela luta de uma mãe pelos filhos para lá do limite do que é ético e moral e por um processo jurídico ao grande estilo das séries de televisão. E até temos direito a reencontrar algumas das personagens (embora sempre num papel mais secundário) e seguir a sua evolução de um livro para o outro.


Para quem quiser seguir alguns conselhos práticos de uma fã acérrima (orgulho-me de dizer que, dos dezassete livros, já li doze), deixo aqui algumas notas;
Apesar de haver personagens recorrentes, não é obrigatório fazer uma leitura sequencial dos livros: cada um conta a sua história individual e é fácil apanhar os pedacinhos da história das personagens que voltam a aparecer; para além disso, as traduções portuguesas também não estão a seguir as datas de publicação e, já agora, são um bom ponto de partida para conhecer a bibliografia de Jodi, com uma qualidade de escrita/tradução bastante aceitável. No entanto (e como já foi referido neste blog) os livros de importação oferecem não só um preço mais em conta, como também uma maior variedade (visto que, obviamente, existem todos os dezassete na língua original) e uma maior percepção da escrita da autora.

Em relação aos próprios livros, só posso dizer os que gostei mais:
Para a Minha Irmã, que conta a história de Anna Fitzgerald e da sua luta contra os pais para obter a emancipação médica e deixar de ser a dadora da irmã, em estado terminal de leucemia;

Dezanove Minutos
, sobre o pesadelo do bullying e de uma vingança ao estilo Columbine que marcam a vida do adolescente Peter Houghton;


Salem Falls
(ainda não traduzido em português) mostra como uma simples acusação de abuso sexual baseada na inveja e irreverência adolescente pode destruir a vida de um homem inocente e iniciar uma caça-às-bruxas dos tempos modernos;


O Décimo Circulo
, uma viagem quase literal aos dez círculos do inferno pessoal de Daniel Stone, quando a sua filha é violada pelo namorado.



Para todos e mais alguns, enjoy

Raquel Pereira