[CINEMA] Review - Homens Que Matam Cabras Só com o Olhar

5 de abril de 2010 à(s) 11:11

Realizador: Grant Heslov
Argumento: Peter Straughan (filme), Jon Ronson (livro)
Com: George Clooney, Ewan McGregor, Jeff Bridges, Kevin Spacey
Duração: 94 minutos

Homens que Matam Cabras Só com o Olhar, no original The Men Who Stare at Goats é só por si um título estranho, que nos enche a boca e que assenta que nem uma luva a esta história alucinada e inverosímil que mais parece saída do imaginário dos irmãos Cohen.

O filme segue a história presente do repórter de um jornal local, Bob Wilton (Ewan McGregor) que um dia entrevista Gus Lacey, um homem que afirma ter capacidades psíquicas e que Wilton primeiramente descarta como mais um maluquinho do pós-guerra. Quando a sua mulher o deixa pelo editor do jornal, Wilton, desesperado e furioso, viaja até ao Kuwait com um intuito de investigar os acontecimentos da guerra do Iraque. No entanto, acaba por tropeçar no grande furo da sua vida jornalística quando conhece o operador das Forças Especiais Lyn Cassady (George Clooney), que lhe revela ser parte de uma unidade do exército americana constituída por espiões psíquicos (denominados de “Guerreiros Jedi”), especialmente treinados a desenvolver uma serie de habilidades parapsicológicas que incluem a invisibilidade, o “
remote viewing” (habilidade de recolher informação acerca de um objecto escondido da vista e localizado à distância, utilizando percepção extra-sensorial ou intuição mental) e a capacidade de rebentar nuvens com a mente e de atravessar paredes.
A partir daí, Lyn e Wilton embarcam numa viagem cheia de peripécias pelo deserto iraquiano (intercalada com os flashbacks da historia de Lyn até ao momento), com a missão de encontrar o superior de Lyn (com o qual ele teve uma visão): Bill Django (Jeff Bridges). Django é o responsável pela criação do New Earth Army, baseada nas explorações do movimento New Age durante a sua viagem pela América dos anos 70, movidas por uma epifania que teve quando levou um tiro durante a guerra do Vietname.

O filme de Heslov tem a sua inspiração no livro do jornalista britânico Jon Ronson, acompanhado pelo documentário em três partes
Crazy Rulers Of The World, fruto do trabalho do jornalista e realizador John Sergeant.

No fundo,
The Men Who Stare at Goats apresenta-nos uma sátira ao período da Guerra Fria, um despique entre duas facções para ver quem reunia a maior parafernália de armas e interceptava a maior quantidade de informação inimiga (ainda que de qualidade duvidosa), mas onde na prática não acontecia nada; aqui, é um caso quase ridículo de: “temos de financiar estas experiências psíquicas com os nossos militares porque os russos também o fizeram, porque por sua vez pensavam que nós já o tínhamos feito”.

Apesar do propósito do filme parecer perder-se, por vezes, no desenrolar do enredo, resultando num amontoado de cenas sequenciais no mínimo bizarras (e se calhar, o propósito é mesmo esse, até porque o livro segue esse método), culminando num final pouco perceptível,
deparamo-nos com momentos tão especiais como a conversa entre Lyn e Wilton no quarto de hotel, sobre Jedis e o poder da Força, quando ironicamente Ewan McGregor (Wilton) é conhecido pelo seu papel de Obi-Wan-Kenobi nos primeiros (ou últimos) três filmes da saga da Guerra das Estrelas; um Jeff Bridges de tranças e um Clooney de cabelo comprido a dançarem danças de salão e a fazer tai-chi ou mesmo o homem que consegue levantar sacos de areia pelo escroto. E claro, a mítica cabra que morre sob o olhar fixo de Clooney, como teste ao alcance das suas capacidades psíquicas.

Tirando o chapéu a um realizador pouco conhecido como Heslov, que consegue reunir um elenco de estrelas de renome numa história pouco convencional, e apesar da pouca projecção nos cinemas portugueses, este é um filme que vale a pena ver, nem que seja só pelo humor negro e a comédia dos momentos, pela entrega total de actores sérios às suas personagens alucinadas (sublime George Clooney, muito pouco
sex-symbol “Nespresso Man” aqui) e pela ironia subliminar (em jeito de critica indirecta) presente em toda a história.


Raquel Pereira



0 Lambidelas

Enviar um comentário