Autor: Chuck Palahniuk
Editora: Vintage
Páginas: 404
Editora: Vintage
Páginas: 404
Sinopse: Dezassete pessoas respondem a um anúncio intitulado: “Retiro para Artistas: Abandone a sua vida por 3 meses.”, uma promessa de afastamento das distracções da”vida real” e da influência da sociedade que até agora impediram estas pessoas de criar a obra-prima literária que existe dentro de cada uma delas. Mas este retiro idílico revela-se afinal um completo isolamento do mundo exterior num velho e cavernoso teatro-museu onde os mantimentos, especialmente a comida, vão escasseando a uma velocidade alarmante. E quanto mais desesperadas as circunstâncias se tornam, mais desesperadas são as histórias que estas pessoas contam e mais tortuosas são as suas maquinações para aumentar o seu sofrimento e assim se tornarem os heróis da peça de teatro/filme/documentário que certamente será realizado após o seu salvamento.
Review: A própria dinâmica deste livro é única: cada capítulo do livro engloba um capítulo da narrativa principal (contada por um narrador desconhecido), um poema sobre uma das personagens no retiro (de autoria desconhecida) e uma história contada por essa personagem, que se conecta com a narrativa principal de alguma forma. O retiro é muitas vezes comparado (embora com consequências incomparavelmente mais desastrosas) a um outro ocorrido na Villa Diodati em 1816, uma mansão na Suiça e alegada residência temporária de Verão de escritores como Lord Byron e Mary Shelley, entre outros, e o berço de várias histórias clássicas de terror como “Frankenstein” e “The Vampire”.
Tal como é dito na contra-capa, Haunted é uma história feita de histórias: 23 das histórias mais terroríficas, hilariantes, alucinantes e repugnantes jamais escritas. Autobiográficas ou meros relatos de acontecimentos a outras pessoas, estas histórias correm um vasto leque de temas e acabam por pervertê-los na narrativa muito pouco inofensiva que apresentam, pela forma como são contadas e principalmente pelos seus conteúdos, que de tão inverosímeis mais parecem inventados…Só que nem todos, pelo menos, o são. Haunted é principalmente conhecido pela short-story “Guts”, a primeira das 23, um conto sobre três violentos acidentes envolvendo actos de masturbação. Segundo o autor, todos os três acidentes são baseados em histórias verídicas. Durante a promoção de livros anteriores, as leituras para o público desta short-story resultaram, nas próprias palavras do escritor, em 73 desmaios na audiência com consequências ligeiramente incómodas, número que continua a aumentar graças a leituras em voz alta de outros leitores para os amigos. E esta não será a mais sombria e perturbante das histórias…
Por outro lado, a história principal não lhes fica atrás. A medida que a narrativa evolui e os três meses passam, vamos assistindo a uma perversão cada vez maior das pessoas aprisionadas, uma luta desesperada de cada personagem pelo alcance de um patamar de sofrimento o mais atroz possível, da simples privação de calor, luz e comida à auto-mutilação, ao assassínio e ao canibalismo, tudo numa tentativa de alcançar a fama na partilha da sua provação com o mundo e sempre atribuindo a culpa das suas atrocidades a uma entidade demoníaca que tanto é incarnada pelo organizador do retiro como pela sua assistente.
Mais que os sentimentos de repugnância, surpresa e espanto que as short-stories me despertaram, o que mais me afecta neste livro acaba por ser as convicções que estas pessoas têm, a ânsia com que correm para o cadafalso, a sua vontade em degradarem a vida e o corpo em nome do reconhecimento social. Apesar de criarem a figura demoníaca que os torturou no retiro durante 3 meses, na verdade tornaram-se eles próprios os demónios. É obvio que estas pessoas estão loucas, insanas. Mas estão conscientes e, por qualquer motivo retorcido perderam qualquer sentido de auto-sobrevivência que faz com que, na minha opinião, o leitor reze para que nunca sejam salvas e morram sozinhas com as suas acções. É, no fundo, a forma habilidosa e provocadora como Palahniuk escreve, que mexe sempre com leitor quer ele queira quer não e que fica cravada nas nossa mente.
Raquel Pereira
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