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[LIVROS] Review - Haunted

26 de janeiro de 2011 à(s) 14:18
Autor: Chuck Palahniuk
Editora: Vintage
Páginas: 404


Sinopse: Dezassete pessoas respondem a um anúncio intitulado: “Retiro para Artistas: Abandone a sua vida por 3 meses.”, uma promessa de afastamento das distracções da”vida real” e da influência da sociedade que até agora impediram estas pessoas de criar a obra-prima literária que existe dentro de cada uma delas. Mas este retiro idílico revela-se afinal um completo isolamento do mundo exterior num velho e cavernoso teatro-museu onde os mantimentos, especialmente a comida, vão escasseando a uma velocidade alarmante. E quanto mais desesperadas as circunstâncias se tornam, mais desesperadas são as histórias que estas pessoas contam e mais tortuosas são as suas maquinações para aumentar o seu sofrimento e assim se tornarem os heróis da peça de teatro/filme/documentário que certamente será realizado após o seu salvamento.

Review: A própria dinâmica deste livro é única: cada capítulo do livro engloba um capítulo da narrativa principal (contada por um narrador desconhecido), um poema sobre uma das personagens no retiro (de autoria desconhecida) e uma história contada por essa personagem, que se conecta com a narrativa principal de alguma forma. O retiro é muitas vezes comparado (embora com consequências incomparavelmente mais desastrosas) a um outro ocorrido na Villa Diodati em 1816, uma mansão na Suiça e alegada residência temporária de Verão de escritores como Lord Byron e Mary Shelley, entre outros, e o berço de várias histórias clássicas de terror como “Frankenstein” e “The Vampire”.

Tal como é dito na contra-capa, Haunted é uma história feita de histórias: 23 das histórias mais terroríficas, hilariantes, alucinantes e repugnantes jamais escritas. Autobiográficas ou meros relatos de acontecimentos a outras pessoas, estas histórias correm um vasto leque de temas e acabam por pervertê-los na narrativa muito pouco inofensiva que apresentam, pela forma como são contadas e principalmente pelos seus conteúdos, que de tão inverosímeis mais parecem inventados…Só que nem todos, pelo menos, o são. Haunted é principalmente conhecido pela short-story “Guts”, a primeira das 23, um conto sobre três violentos acidentes envolvendo actos de masturbação. Segundo o autor, todos os três acidentes são baseados em histórias verídicas. Durante a promoção de livros anteriores, as leituras para o público desta short-story resultaram, nas próprias palavras do escritor, em 73 desmaios na audiência com consequências ligeiramente incómodas, número que continua a aumentar graças a leituras em voz alta de outros leitores para os amigos. E esta não será a mais sombria e perturbante das histórias…

Por outro lado, a história principal não lhes fica atrás. A medida que a narrativa evolui e os três meses passam, vamos assistindo a uma perversão cada vez maior das pessoas aprisionadas, uma luta desesperada de cada personagem pelo alcance de um patamar de sofrimento o mais atroz possível, da simples privação de calor, luz e comida à auto-mutilação, ao assassínio e ao canibalismo, tudo numa tentativa de alcançar a fama na partilha da sua provação com o mundo e sempre atribuindo a culpa das suas atrocidades a uma entidade demoníaca que tanto é incarnada pelo organizador do retiro como pela sua assistente.

Mais que os sentimentos de repugnância, surpresa e espanto que as short-stories me despertaram, o que mais me afecta neste livro acaba por ser as convicções que estas pessoas têm, a ânsia com que correm para o cadafalso, a sua vontade em degradarem a vida e o corpo em nome do reconhecimento social. Apesar de criarem a figura demoníaca que os torturou no retiro durante 3 meses, na verdade tornaram-se eles próprios os demónios. É obvio que estas pessoas estão loucas, insanas. Mas estão conscientes e, por qualquer motivo retorcido perderam qualquer sentido de auto-sobrevivência que faz com que, na minha opinião, o leitor reze para que nunca sejam salvas e morram sozinhas com as suas acções. É, no fundo, a forma habilidosa e provocadora como Palahniuk escreve, que mexe sempre com leitor quer ele queira quer não e que fica cravada nas nossa mente.
Raquel Pereira

[LIVROS] Review - Clube de Combate

23 de junho de 2010 à(s) 22:09

Autor: Chuck Palahniuk

Título Original: Fight Club (1996)
Editora: Vintage
Páginas: 208

Sinopse: As experiências de um protagonista anónimo, um zé-ninguém com uma vida perfeitamente insignificante como funcionário de uma empresa de automóveis, responsável por determinar se a recolha de produtos defeituosos apresenta uma relação custo-benefício mais positiva que o aumento da taxa de mortalidade por acidentes de viação de "causa desconhecida". Uma identidade imposta pelo trabalho,um consumo obsessivo de mobília sueca e uma vida quase completamente passada a bordo de aviões em viagens de negócios, levam este homem a um estado de jet lag perpétuo e insónia aparentemente incurável. Inspirado pela opinião desesperada e algo irónica do seu médico, acaba por encontrar o alívio que procura na personificação de doente moribundo em vários grupos de apoio de doentes, onde descobre que ouvir as histórias dramáticas e chorar nos braços dos seus companheiros é a cura perfeita para semanas e semanas de insónia.
Pouco tempo depois, conhece Tyler Durden, um carismático individuo, anarco-niilista e com um ódio de morte à sociedade do consumo, ao materialismo e ao capitalismo. Juntos criam o Clube de Combate (Fight Club), sociedade underground e supostamente secreta onde homens de todas as classes sociais abdicam da sua identidade (e dinheiro) para passarem 5 horas a darem cabo uns dos outros à porrada, segundo um conjunto de regras que todos seguem religiosamente. Uma sociedade rapidamente tornada um culto á escala nacional e que rapidamente descamba em ataques cada vez mais elaborados à América corporativa, com o objectivo de destruição da civilização moderna como a conhecemos.


Review:
Segundo o autor, antes de todo o culto real à roda do livro, antes da estreia do filme (realizado por David Fincher e protagonizado por Brad Pitt e Edward Norton, numa fiel adaptação da história), antes da criação de Clubes de Combate ilegais nos EUA, no Brasil e pelo mundo fora, antes da apresentação do "look fight club" na colecção da Versace e D&G, antes dos jovens mudarem legalmente o seu nome para Tyler Durden, antes das conferências académicas para o estudo do livro na Universidade da Pensilvânia, antes do assédio do autor por editores de revistas e jornais que prentendiam encontrar o Clube de Combate mais próximo e para lá enviar um reportér infiltrado, antes do assédio do autor por editores de revistas e jornais a desancá-lo por afirmar que os Clubes de Combate não passavam de ficção, antes do frigorífico do autor estar completamente coberto de fotografias enviadas por fãs sorridentes de caras esmurradas e manietando amigos em ringues de boxe nos quintais de sua casa, antes de milhares de cartas de agradecimento por uma história que levou filhos/maridos/alunos a voltar a ler ou de desagrado pela invenção prévia de Clubes de Combate.........antes de tudo isto, Fight Club era apenas uma short-story de 7 páginas (publicada na compilação The Pursuit of Happiness e actualmente correspondente ao 6º capitulo do livro), inspirada numa luta num acampamento de Verão: apesar do olho negro e inchado, nenhum dos colegas de trabalho do autor lhe perguntou o que acontecera e este percebeu que basicamente "podes fazer qualquer coisa na tua vida privada, desde que te deixe tão ferido e marcado que ninguém queira saber os pormenores". O conceito surgia para colmatar a falta de "um novo modelo social para que os homens, exclusivamente, se reunissem e estivessem juntos e partilhassem as suas vidas, com uma estrutura, com papeis, com regras e tarefas, mas nada muito lamecha".


Para a reedição de Fight Club na forma de livro singular, Chuck adicionou à short-story as histórias dos amigos, desde a introdução de imagens subliminares de pornografia por entre os frames dos filmes da Disney à adulteração da comida de restaurantes requintados com temperos menos próprios e demasiado "pessoais". Na minha opinião, a combinação resulta numa leitura deveras interessante e tão estimulante para os que já tinham visto o filme como para os que nunca o viram, com situações bem humorísticas (ainda que de uma forma um bocado retorcida) e genialmente tresloucadas, e pérolas de conhecimento imperdíveis como como fazer nitroglicerina, como fazer napalm, como nunca devemos confiar num empregado de mesa, projector de cinema ou fabricante de sabonetes com olhos negros e dentes partidos, e por aí fora....E, último conselho, lê-lo na língua original é tão melhor de certeza absoluta.....


Raquel Pereira