Em 1995 a UNESCO decidiu instaurar o dia mundial do livro e dos direitos de autor no dia 23 de Abril. O dia foi escolhido pelo seu significado para o mundo literário; na Catalunha comemora-se o Dia de São Jorge em que os homens oferecem rosas às suas amadas, que lhes oferecem um livro em troca. O dia de 23 de Abril marca também o nascimento e morte de William Shakespear, a morte de Miguel de Cervantes, Inca Garcilaso de la Vega e Josep Pla, e ainda o nascimento de Maurice Druon, Vladimir Nabokov, Manuel Mejía Vallejo e Halldór Laxness.
Não sou um enorme fã desta moda dos dias mundiais de tudo e mais alguma coisa, mas também não custa chamar a atenção para este Dia Mundial do Livro já que, cada vez mais, vivemos numa sociedade que pouca ou nenhuma importância dá à literatura, especialmente à boa literatura. Muita coisa pode ser dita sobre livros e os hábitos de leitura dos portugueses. No entanto aquilo que eu sinto é que muitas vezes falta a vontade de “pegar o touro pelos cornos” no que toca à questão do porquê de cada vez se ler menos. Sem, obviamente, possuir o tempo e a informação para abordar o assunto na sua globalidade vou apenas focar-me um pouco nas desculpas, muito pouco convincentes, que se costuma ouvir nas televisões e ler nas revistas para que os portugueses, em especial os jovens, não comprem livros e não tenham hábitos de leitura saudáveis.
O preço dos livros:
É verdade os livros são demasiado caros, e muitas vezes dar mais de 20 euros por um livro, especialmente para as famílias mais pobres seja um sacrifício ou mesmo uma impossibilidade. Mas será que os livros são assim tão caros que tal facto justifique, como tanta vez se ouve, o seu total abandono? Na minha opinião, dificilmente. Primeiro temos de ver que nem todos os livros custam 20 euros, existem livros na casa dos 12 euros, e se entrarmos no campo dos livros de bolso podemos encontrar alternativas por aproximadamente 5 euros. Ainda que limitados pela barreira linguística, os livros de importação podem constituir boas alternativas devido aos seus preços bastantes reduzidos (como já foi discutido num post anterior). Outro dos factores que se deve ter em conta é a existência de feiras e pequenas lojas que vendem livros em 2ª mão, obviamente por preços mais reduzidos. O que mais me chateia em relação a este assunto é o facto de muitas vezes nem serem as pessoas menos abastadas que se queixam do preço dos livros. Fica à consciência de cada um decidir se é melhor gastar 6 euros num livro de bolso ou numa vodka laranja numa discoteca. É obvio que eu gostava que os livros fossem mais baratos, especialmente para os jovens, mas como desculpa para não se ler parece-me muito pouco sólido.
Acesso a bibliotecas
A dificuldade de acesso a bibliotecas é uma queixa bastante frequente, e no que toca às populações mais isoladas das grandes cidades é um argumento, infelizmente, válido. Nos meios urbanos a questão é bastante diferente. Não me querendo alargar muito no assunto visto que não tenho grande experiência no campo das bibliotecas, aquilo que eu sei, é que vivo relativamente perto de 3 bibliotecas, e a menos de uma hora de comboio de outras tantas. Portanto não me parece que a maioria das pessoas tenha grande razão de queixa. Além disso a maioria (senão mesmo todas) as escolas têm uma biblioteca. Li no outro dia alguém que dizia que um dos grandes problemas das bibliotecas escolares é que estavam limitadas aos livros mais “clássicos” e que isso afastava os jovens que não se interessavam. Honestamente o único pensamento que eu tenho em relação a este tipo de argumentos é algo do género: se os jovens tivessem gostos de leitura isso implicava que gostariam de ler livros de qualidade, e como os “clássicos” são livros de qualidade, logo eles teriam vontade de ler os livros da biblioteca. Talvez eu esteja completamente errado e todos os “miúdos” devessem ter nas bibliotecas o mais recente livro do Capitão Cuecas.
Falta de Incentivos em casa
Mais uma vez é uma constatação triste; a geração dos nossos pais e avós, na generalidade não tem gostos de leitura nem incentiva ou incentivou os seus filhos/netos a ler. Para as mentes que acham que isto faz um sentido tremendo lamento informar que conheço alguns leitores ávidos cujos pais pouco ou nada lêem, e conheço os que vivem rodeados de livros em casa e não demonstram qualquer interesse. Não vou negar que possa ter alguma influência, mas assumir o argumento como crucial, implica dizer que o ambiente familiar é absolutamente determinante dos gostos do indivíduo e que o mesmo não apresenta livre arbítrio. Se tal argumento fosse válido, e portanto assumissemos o determinismo, seria de esperar que qualquer adolescente gostasse da mesma música que os pais e que os videojogos, por exemplo, não teriam grande expressão.
Falta de Incentivos na Escola
E isto é especialmente preocupante por ser uma realidade, já que nas nossas escolas pouco ou nada se incentiva a ler. Ainda mais triste é que quando se pede para ler, a avaliação dessa mesma leitura é sempre no sentido de ver se o indivíduo conseguiu memorizar uma série de conceitos, mesmo que não os perceba; o espírito crítico é sempre deixado para segundo plano. Como é que é possível dar poesia a ler a alguém e a seguir dizer que agora tem de memorizar as directrizes do ministério para a interpretação daquele texto (quem diz poesia diz qualquer outro texto). Onde é que está o espírito crítico? O poder interpretativo? E depois queixam-se que os alunos são “quadrados de pensamento”. A razão pela qual acho que este argumento não pode ser usado como definitivo, sem nunca negar a sua importância, é que todos os jovens passam pelo mesmo sistema de ensino; se estivéssemos a falar de um factor determinante seria de esperar que nenhum jovem se interessasse pela leitura. No entanto deve salientar-se que, felizmente, existem muitos bons professores de português por essas escolas, que todos os dias se esforçam para mudar este triste panorama, e que merecem todo o respeito.
Então afinal qual é o problema? Porque é que existem tão poucos leitores, especialmente na camada mais jovens? Como já referi não tenho uma resposta definitiva, tenho apenas a minha opinião. Primeiro é de constatar que os argumentos que refutei em cima têm o seu peso no processo, e como tal não podem, nem devem, ser ignorados, mas, também não podem ser vistos como definitivos. Segundo, acho que o problema principal é o desinteresse geral da sociedade, que não exige que os indivíduos tenham bases culturais para que se possam comportar dentro da sociedade e escalar na hierarquia social. Infelizmente vivemos num país onde apenas se exige apenas a mediocridade, em que decorar uma série de conceitos sem os perceber é suficiente para se subir na vida. Os indivíduos valorizam apenas aquilo que lhes oferece benefícios sociais ou pequenos prazeres acéfalos, por isso preferem ver coisas como telenovelas em vez de ler livros ou de experiemntar outra forma de cultura. Os níveis baixos de vendas de livro e de bons hábitos de literatura não são a doença, são um sintoma de algo muito maior, de um país culturalmente decadente e sem objectivos, de um sistema de ensino fraco e de uma sociedade fútil.
Não sou um enorme fã desta moda dos dias mundiais de tudo e mais alguma coisa, mas também não custa chamar a atenção para este Dia Mundial do Livro já que, cada vez mais, vivemos numa sociedade que pouca ou nenhuma importância dá à literatura, especialmente à boa literatura. Muita coisa pode ser dita sobre livros e os hábitos de leitura dos portugueses. No entanto aquilo que eu sinto é que muitas vezes falta a vontade de “pegar o touro pelos cornos” no que toca à questão do porquê de cada vez se ler menos. Sem, obviamente, possuir o tempo e a informação para abordar o assunto na sua globalidade vou apenas focar-me um pouco nas desculpas, muito pouco convincentes, que se costuma ouvir nas televisões e ler nas revistas para que os portugueses, em especial os jovens, não comprem livros e não tenham hábitos de leitura saudáveis.
O preço dos livros:
É verdade os livros são demasiado caros, e muitas vezes dar mais de 20 euros por um livro, especialmente para as famílias mais pobres seja um sacrifício ou mesmo uma impossibilidade. Mas será que os livros são assim tão caros que tal facto justifique, como tanta vez se ouve, o seu total abandono? Na minha opinião, dificilmente. Primeiro temos de ver que nem todos os livros custam 20 euros, existem livros na casa dos 12 euros, e se entrarmos no campo dos livros de bolso podemos encontrar alternativas por aproximadamente 5 euros. Ainda que limitados pela barreira linguística, os livros de importação podem constituir boas alternativas devido aos seus preços bastantes reduzidos (como já foi discutido num post anterior). Outro dos factores que se deve ter em conta é a existência de feiras e pequenas lojas que vendem livros em 2ª mão, obviamente por preços mais reduzidos. O que mais me chateia em relação a este assunto é o facto de muitas vezes nem serem as pessoas menos abastadas que se queixam do preço dos livros. Fica à consciência de cada um decidir se é melhor gastar 6 euros num livro de bolso ou numa vodka laranja numa discoteca. É obvio que eu gostava que os livros fossem mais baratos, especialmente para os jovens, mas como desculpa para não se ler parece-me muito pouco sólido.
Acesso a bibliotecas
A dificuldade de acesso a bibliotecas é uma queixa bastante frequente, e no que toca às populações mais isoladas das grandes cidades é um argumento, infelizmente, válido. Nos meios urbanos a questão é bastante diferente. Não me querendo alargar muito no assunto visto que não tenho grande experiência no campo das bibliotecas, aquilo que eu sei, é que vivo relativamente perto de 3 bibliotecas, e a menos de uma hora de comboio de outras tantas. Portanto não me parece que a maioria das pessoas tenha grande razão de queixa. Além disso a maioria (senão mesmo todas) as escolas têm uma biblioteca. Li no outro dia alguém que dizia que um dos grandes problemas das bibliotecas escolares é que estavam limitadas aos livros mais “clássicos” e que isso afastava os jovens que não se interessavam. Honestamente o único pensamento que eu tenho em relação a este tipo de argumentos é algo do género: se os jovens tivessem gostos de leitura isso implicava que gostariam de ler livros de qualidade, e como os “clássicos” são livros de qualidade, logo eles teriam vontade de ler os livros da biblioteca. Talvez eu esteja completamente errado e todos os “miúdos” devessem ter nas bibliotecas o mais recente livro do Capitão Cuecas.
Falta de Incentivos em casa
Mais uma vez é uma constatação triste; a geração dos nossos pais e avós, na generalidade não tem gostos de leitura nem incentiva ou incentivou os seus filhos/netos a ler. Para as mentes que acham que isto faz um sentido tremendo lamento informar que conheço alguns leitores ávidos cujos pais pouco ou nada lêem, e conheço os que vivem rodeados de livros em casa e não demonstram qualquer interesse. Não vou negar que possa ter alguma influência, mas assumir o argumento como crucial, implica dizer que o ambiente familiar é absolutamente determinante dos gostos do indivíduo e que o mesmo não apresenta livre arbítrio. Se tal argumento fosse válido, e portanto assumissemos o determinismo, seria de esperar que qualquer adolescente gostasse da mesma música que os pais e que os videojogos, por exemplo, não teriam grande expressão.
Falta de Incentivos na Escola
E isto é especialmente preocupante por ser uma realidade, já que nas nossas escolas pouco ou nada se incentiva a ler. Ainda mais triste é que quando se pede para ler, a avaliação dessa mesma leitura é sempre no sentido de ver se o indivíduo conseguiu memorizar uma série de conceitos, mesmo que não os perceba; o espírito crítico é sempre deixado para segundo plano. Como é que é possível dar poesia a ler a alguém e a seguir dizer que agora tem de memorizar as directrizes do ministério para a interpretação daquele texto (quem diz poesia diz qualquer outro texto). Onde é que está o espírito crítico? O poder interpretativo? E depois queixam-se que os alunos são “quadrados de pensamento”. A razão pela qual acho que este argumento não pode ser usado como definitivo, sem nunca negar a sua importância, é que todos os jovens passam pelo mesmo sistema de ensino; se estivéssemos a falar de um factor determinante seria de esperar que nenhum jovem se interessasse pela leitura. No entanto deve salientar-se que, felizmente, existem muitos bons professores de português por essas escolas, que todos os dias se esforçam para mudar este triste panorama, e que merecem todo o respeito.
Então afinal qual é o problema? Porque é que existem tão poucos leitores, especialmente na camada mais jovens? Como já referi não tenho uma resposta definitiva, tenho apenas a minha opinião. Primeiro é de constatar que os argumentos que refutei em cima têm o seu peso no processo, e como tal não podem, nem devem, ser ignorados, mas, também não podem ser vistos como definitivos. Segundo, acho que o problema principal é o desinteresse geral da sociedade, que não exige que os indivíduos tenham bases culturais para que se possam comportar dentro da sociedade e escalar na hierarquia social. Infelizmente vivemos num país onde apenas se exige apenas a mediocridade, em que decorar uma série de conceitos sem os perceber é suficiente para se subir na vida. Os indivíduos valorizam apenas aquilo que lhes oferece benefícios sociais ou pequenos prazeres acéfalos, por isso preferem ver coisas como telenovelas em vez de ler livros ou de experiemntar outra forma de cultura. Os níveis baixos de vendas de livro e de bons hábitos de literatura não são a doença, são um sintoma de algo muito maior, de um país culturalmente decadente e sem objectivos, de um sistema de ensino fraco e de uma sociedade fútil.
Mário Barroso





