[LIVROS] Haruki Murakami

26 de março de 2010 à(s) 22:42

Falar de Haruki Murakami é uma tarefa um tanto ou quanto penosa para mim. Primeiro porque sei que muito dificilmente qualquer coisa que possa escrever poderá alguma vez ser representativo da complexidade presente nas obras do autor; e segundo porque dificilmente poderei proferir uma análise justa e independente da minha adoração pelos livros que já li. Portanto, o texto que se segue não tenta ser uma análise imparcial, não tenta ser uma avaliação, mas apenas um veículo para divulgar a vida e obra de Murakami.


Haruki Murakami nasceu em Quioto a 12 de Janeiro de 1949, em pleno baby-boom e no coração do Japão pós-guerra. Filho único de professores de literatura japonesa, Murakami rapidamente desenvolveu um gosto pela cultura americana em detrimento das influências tradicionais do ambiente familiar. Começou por ler Chekhov, Dostoyevsky, Flaubert e Dickens, mas rapidamente passou para literatura americana, histórias de detectives, ficção científica, Kurt Vonnegut, Richard Brautigan ou Truman Capote. Ao mesmo tempo que as portas da literatura ocidental se abriam, Murakami, começou a ouvir Beatles, Beach Boys e Elvis. A influência da cultura americana marcou profundamente o seu crescimento e constitui uma influência constante nos seus livros.

Em 1963, com 14 anos, Murakami iria encontrar uma das suas maiores paixões, a música Jazz, ao assistir a um concerto de Art Blakey and the Jazz Messengers. O Jazz marcou tanto a sua vida que em 1971, pouco tempo depois de casar com Yoko Takahashi, decidiu abrir um bar de Jazz em Tóquio a que chamou Peter Cat, em homenagem ao seu gato (os gatos são também um elemento importante na sua obra). Alem de dono, Murakami, servia bebidas, levantava pratos, mudava os discos e escolhia os artistas que todos os fins-de-semana se apresentavam no bar. Nos tempos livres que o trabalho lhe permitia dedicava-se à leitura e ao estudo, tendo terminado o curso de dramaturgia em 1975.

 A sua carreira como escritor começou apenas em 1978, depois de ter tido a ideia de escrever um livro enquanto assistia a um jogo de basebol. Após 6 meses de noites em branco, e com Yoko como principal apoio, Hear the Wind Sing viu a luz do dia. O seu primeiro livro já contava com bastantes elementos que se tornaram recorrentes na obra de Murakami: problemas da adolescência, literatura, jazz e um sentido de humor alternativo. O livro valeu-lhe um prémio literário para novos autores.

O sucesso das suas short stories e do seu segundo livro, Pinball, 1973, levaram à decisão de vender o bar e Murakami tornou-se num escritor a tempo inteiro. Esta mudança de profissão levou a um mudança radical no seu estilo de vida, que incluía horários rígidos e uma alimentação saudável, e que se encontra disseminada pela obra do autor. Para descansar da sua escrita iniciou nesta época a sua carreira como tradutor de literatura americana.

Em 1982 é editado A Wild Sheep Chase (Em Busca do Carneiro Selvagem) que confirma a individualidade do autor. O livro foi considerado alucinatório e surrealista e revelou-se um sucesso entre os críticos, tendo estabelecido Murakami como uma das novas vozes da literatura nipónica. O autor considera este o seu primeiro bom livro e revela que foi a primeira vez que sentiu uma verdadeira paixão por aquilo que escrevia.

Em 1985, Murakami escreve Hard-Boiled Wonderland and the End of the World, elevando novamente os níveis de complexidade narrativa. Em 1987 lança Norwegian Wood, uma história simples, directa e altamente sentimental. O livro vendeu milhões de cópias entre os jovens japoneses, tornando Murakami numa espécie de super-estrela pop no Japão. Vivendo em Itália o autor viveu toda esta febre de longe, e apenas quando voltou ao Japão em 1988, após escrever Dance, Dance, Dance (Dança, Dança, Dança) se viu confrontado com o seu novo estatuto. Descontente com a situação decidiu fugir, primeiro para a Europa e depois para os Estados Unidos onde escreveu South of the Border, West of the Sun (A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol) e The Wind-Up Bird Chronicle (Crónica do Pássaro de Corda). Publicado em 1994, The Wind-Up Bird Chronicle, faz uma fusão entre elementos realísticos e fantásticos e possui uma maior vertente social abordando o massacre de Manchúria. O livro ganhou o Yomiuri Prize que foi entregue a Murakami por um dos seus maiores críticos, Prémio Nobel da literatura 1994, Kenzaburo Oe.

No inicio de 1995 dois incidentes levam Murakami a afastar-se da ficção. A 17 de Janeiro a região de Kobe no Japão é violentamente atingida por um terramoto de magnitude 6.8 que levou à morte de mais de 6400 pessoas. A 20 de Março membros da Aum Shinrikyo, um grupo religioso japonês, lançou um ataque com gás Sarin no metro de Tóquio matando 13 pessoas e causando pelo menos mais 50 feridos. O resultado foi Underground, um trabalho que consistia maioritariamente em entrevistas a vítimas do ataque no metro, e After the Quake uma colecção de short stories.

Em 1999 é lançado Sputnik Sweetheart (Sputnik, meu amor) e em 2002 Kafka on the Shore (Kafka à Beira-mar), a história sobre um rapaz de 15 anos que decide fugir de casa. Kafka à Beira-mar exibe quase todos os traços característicos de Murakami, as situações do quotidiano são exploradas pela metáfora e os elementos surreais fundem-se com a realidade, brindando o leitor com uma intricada e homogénea narrativa à qual dificilmente se pode ficar indiferente. O livro valeu-lhe o Franz Kafka Prize em 2006.

Em 2004 é editado After Dark (Os Passageiros da Noite), um romance pós-moderno sobre a vida irracional, ilógica e perturbada a altas horas da noite. Em 2007 é lançado What I Talk About When I Talk About Running (Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo), um livro de memórias sobre as suas experiências enquanto corredor de fundo. Murakami começou a correr no inicio dos anos 80 tendo já completado mais de 20 maratonas e 1 ultra-maratona.

Em 2009 foram publicados os dois primeiros volumes do seu mais recente trabalho, 1Q84, sendo que o volume final tem data de lançamento marcada para Abril de 2010. Este ano será ainda possível ver a adaptação cinematográfica de Norwegian Wood do realizador Franco-vietnamita Tran Anh Hung.

Num resumo simplista pode dizer-se que o trabalho de ficção de Murakami, fortemente criticado pelos autores nipónicos conservadores, baseia-se no surreal com traços humorísticos mas que ao mesmo tempo contempla fortemente o sentimento da perda e da solidão. É também uma forte crítica à sociedade japonesa contemporânea, e ao mundo ocidental em geral, ao atacar o declínio dos valores morais e das relações humanas.

Como já tinha dado a entender no inicio deste texto, Haruki Murakami, é um dos meus autores favoritos e recomendo vivamente a leitura da sua obra. Não tendo lido ainda toda a obra do autor, recomendo especialmente Kafka, à Beira-Mar, Em Busca do Carneiro Selvagem e After Dark, este último sendo um excelente livro para iniciar a exploração de Murakami pois apresenta os traços gerais do autor sem se tornar exaustivo. Para quem se sentir mais confiante então Em Busca do Carneiro Selvagem é provavelmente o melhor do autor traduzido para português, sendo Kafka à Beira-mar o meu favorito apenas porque as situações apresentadas na narrativa exercem sobre mim uma maior influência.

"The best way to think about reality is to get as far away from it as possible" - Haruki Murakami, The Wind-Up Bird Chronicle



Mário Barroso

3 Lambidelas

  1. Unknown Says:
    Este comentário foi removido pelo autor.
  2. Unknown Says:

    Até correu bem... para que estava preocupado em ser imparcial, e conhecendo a tua adoração por este autor, acho que fizeste um óptimo trabalho...
    O que achas de começar pelo Kafka à Beira-mar??

  3. Muitó obrigada XD
    Eu começei pelo kafka e adorei (a recomendação de começar por algo mais simples tem mais a ver com a pouca inclinação da maioria dos pessoas para o surreal). Prepara-te para entrares na 5ª dimensão!

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