[LIVROS] Haruki Murakami

26 de março de 2010 à(s) 22:42

Falar de Haruki Murakami é uma tarefa um tanto ou quanto penosa para mim. Primeiro porque sei que muito dificilmente qualquer coisa que possa escrever poderá alguma vez ser representativo da complexidade presente nas obras do autor; e segundo porque dificilmente poderei proferir uma análise justa e independente da minha adoração pelos livros que já li. Portanto, o texto que se segue não tenta ser uma análise imparcial, não tenta ser uma avaliação, mas apenas um veículo para divulgar a vida e obra de Murakami.


Haruki Murakami nasceu em Quioto a 12 de Janeiro de 1949, em pleno baby-boom e no coração do Japão pós-guerra. Filho único de professores de literatura japonesa, Murakami rapidamente desenvolveu um gosto pela cultura americana em detrimento das influências tradicionais do ambiente familiar. Começou por ler Chekhov, Dostoyevsky, Flaubert e Dickens, mas rapidamente passou para literatura americana, histórias de detectives, ficção científica, Kurt Vonnegut, Richard Brautigan ou Truman Capote. Ao mesmo tempo que as portas da literatura ocidental se abriam, Murakami, começou a ouvir Beatles, Beach Boys e Elvis. A influência da cultura americana marcou profundamente o seu crescimento e constitui uma influência constante nos seus livros.

Em 1963, com 14 anos, Murakami iria encontrar uma das suas maiores paixões, a música Jazz, ao assistir a um concerto de Art Blakey and the Jazz Messengers. O Jazz marcou tanto a sua vida que em 1971, pouco tempo depois de casar com Yoko Takahashi, decidiu abrir um bar de Jazz em Tóquio a que chamou Peter Cat, em homenagem ao seu gato (os gatos são também um elemento importante na sua obra). Alem de dono, Murakami, servia bebidas, levantava pratos, mudava os discos e escolhia os artistas que todos os fins-de-semana se apresentavam no bar. Nos tempos livres que o trabalho lhe permitia dedicava-se à leitura e ao estudo, tendo terminado o curso de dramaturgia em 1975.

 A sua carreira como escritor começou apenas em 1978, depois de ter tido a ideia de escrever um livro enquanto assistia a um jogo de basebol. Após 6 meses de noites em branco, e com Yoko como principal apoio, Hear the Wind Sing viu a luz do dia. O seu primeiro livro já contava com bastantes elementos que se tornaram recorrentes na obra de Murakami: problemas da adolescência, literatura, jazz e um sentido de humor alternativo. O livro valeu-lhe um prémio literário para novos autores.

O sucesso das suas short stories e do seu segundo livro, Pinball, 1973, levaram à decisão de vender o bar e Murakami tornou-se num escritor a tempo inteiro. Esta mudança de profissão levou a um mudança radical no seu estilo de vida, que incluía horários rígidos e uma alimentação saudável, e que se encontra disseminada pela obra do autor. Para descansar da sua escrita iniciou nesta época a sua carreira como tradutor de literatura americana.

Em 1982 é editado A Wild Sheep Chase (Em Busca do Carneiro Selvagem) que confirma a individualidade do autor. O livro foi considerado alucinatório e surrealista e revelou-se um sucesso entre os críticos, tendo estabelecido Murakami como uma das novas vozes da literatura nipónica. O autor considera este o seu primeiro bom livro e revela que foi a primeira vez que sentiu uma verdadeira paixão por aquilo que escrevia.

Em 1985, Murakami escreve Hard-Boiled Wonderland and the End of the World, elevando novamente os níveis de complexidade narrativa. Em 1987 lança Norwegian Wood, uma história simples, directa e altamente sentimental. O livro vendeu milhões de cópias entre os jovens japoneses, tornando Murakami numa espécie de super-estrela pop no Japão. Vivendo em Itália o autor viveu toda esta febre de longe, e apenas quando voltou ao Japão em 1988, após escrever Dance, Dance, Dance (Dança, Dança, Dança) se viu confrontado com o seu novo estatuto. Descontente com a situação decidiu fugir, primeiro para a Europa e depois para os Estados Unidos onde escreveu South of the Border, West of the Sun (A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol) e The Wind-Up Bird Chronicle (Crónica do Pássaro de Corda). Publicado em 1994, The Wind-Up Bird Chronicle, faz uma fusão entre elementos realísticos e fantásticos e possui uma maior vertente social abordando o massacre de Manchúria. O livro ganhou o Yomiuri Prize que foi entregue a Murakami por um dos seus maiores críticos, Prémio Nobel da literatura 1994, Kenzaburo Oe.

No inicio de 1995 dois incidentes levam Murakami a afastar-se da ficção. A 17 de Janeiro a região de Kobe no Japão é violentamente atingida por um terramoto de magnitude 6.8 que levou à morte de mais de 6400 pessoas. A 20 de Março membros da Aum Shinrikyo, um grupo religioso japonês, lançou um ataque com gás Sarin no metro de Tóquio matando 13 pessoas e causando pelo menos mais 50 feridos. O resultado foi Underground, um trabalho que consistia maioritariamente em entrevistas a vítimas do ataque no metro, e After the Quake uma colecção de short stories.

Em 1999 é lançado Sputnik Sweetheart (Sputnik, meu amor) e em 2002 Kafka on the Shore (Kafka à Beira-mar), a história sobre um rapaz de 15 anos que decide fugir de casa. Kafka à Beira-mar exibe quase todos os traços característicos de Murakami, as situações do quotidiano são exploradas pela metáfora e os elementos surreais fundem-se com a realidade, brindando o leitor com uma intricada e homogénea narrativa à qual dificilmente se pode ficar indiferente. O livro valeu-lhe o Franz Kafka Prize em 2006.

Em 2004 é editado After Dark (Os Passageiros da Noite), um romance pós-moderno sobre a vida irracional, ilógica e perturbada a altas horas da noite. Em 2007 é lançado What I Talk About When I Talk About Running (Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo), um livro de memórias sobre as suas experiências enquanto corredor de fundo. Murakami começou a correr no inicio dos anos 80 tendo já completado mais de 20 maratonas e 1 ultra-maratona.

Em 2009 foram publicados os dois primeiros volumes do seu mais recente trabalho, 1Q84, sendo que o volume final tem data de lançamento marcada para Abril de 2010. Este ano será ainda possível ver a adaptação cinematográfica de Norwegian Wood do realizador Franco-vietnamita Tran Anh Hung.

Num resumo simplista pode dizer-se que o trabalho de ficção de Murakami, fortemente criticado pelos autores nipónicos conservadores, baseia-se no surreal com traços humorísticos mas que ao mesmo tempo contempla fortemente o sentimento da perda e da solidão. É também uma forte crítica à sociedade japonesa contemporânea, e ao mundo ocidental em geral, ao atacar o declínio dos valores morais e das relações humanas.

Como já tinha dado a entender no inicio deste texto, Haruki Murakami, é um dos meus autores favoritos e recomendo vivamente a leitura da sua obra. Não tendo lido ainda toda a obra do autor, recomendo especialmente Kafka, à Beira-Mar, Em Busca do Carneiro Selvagem e After Dark, este último sendo um excelente livro para iniciar a exploração de Murakami pois apresenta os traços gerais do autor sem se tornar exaustivo. Para quem se sentir mais confiante então Em Busca do Carneiro Selvagem é provavelmente o melhor do autor traduzido para português, sendo Kafka à Beira-mar o meu favorito apenas porque as situações apresentadas na narrativa exercem sobre mim uma maior influência.

"The best way to think about reality is to get as far away from it as possible" - Haruki Murakami, The Wind-Up Bird Chronicle



Mário Barroso

[MÚSICA] The Temper Trap

25 de março de 2010 à(s) 16:48

Mesmo estando o artista da semana já sabiamente escolhido (Go White Stripes!) não posso deixar passar a oportunidade de dar a conhecer a minha mais recente descoberta musical: a banda australiana The Temper Trap.

A banda de Melbourne é composta pelos “bons rapazes” Dougie Mandagi (voz, guitarra), Jonathon Aherne (baixo), Lorenzo Sillitto (guitarra, teclado) e Toby Dundas (bateria) e enquadra-se no género do rock alternativo com alguma mistura punk, com uma sonoridade que, embora algo estranha (veja-se o timbre de voz do vocalista, o senhor armado de pá e vassoura na foto), é extremamente agradável e envolvente e mostra-nos algo diferente do habitual, uma lufada de ar fresco no meio da mediocridade que anda por aí hoje em dia, onde é frequente a sensação de que as músicas que ouvimos na rádio são todas versões da mesma melodia cansada….


O primeiro e único álbum dos The Temper Trap até ao momento, Conditions, foi lançado o ano passado na Austrália (em Junho de 2009), atingindo automaticamente os tops no nono lugar. Mandagi aponta como principais influências bandas como os Radiohead, Prince, Massive Attack ou U2, uma panóplia de estilos certamente variada que fazem deste álbum um óptimo exercício musical.


A estreia oferece-nos grandes hits como “Sweet Disposition”, “Science of Fear” e “Fader”, composições aliás utilizadas em diversos anúncios, filmes, séries e campanhas televisivas (só para referir alguns exemplos: “Sweet Disposition” integra a banda sonora do recente filme 500 Days of Summer de Marc Webb, bem como anúncios da Chrysler, da Sky Sports ou da Diet Coke e “Fader” surge num dos episódios da mais recente série “vampiresca” The Vampire Diaries). Mas desengane-se quem ache que a banda fica por aqui: nenhuma das músicas do álbum deve ser ignorada; por exemplo, “Soldier On” e “Love Lost” são igualmente muito boas.


Conditions tem sido bem recebido pela crítica geral, especialmente no país de origem da banda, com várias nomeações para os ARIA Awards (Australian Recording Industry Association Music Awards), incluindo Álbum do Ano e Single do Ano (“Sweet Disposition”).


Por tudo isto e muito mais, e para os mais distraídos (ou para os já fãs da banda), deixo-vos aqui com um pequeno “taste” do que estão a perder (ou a ganhar…).

Raquel Pereira







[LIVROS] Review - Por Um Fio

à(s) 16:34

Autor: Joe Connelly
Título Or
iginal: Bringing Out the Dead (1998)
Editora: Pl
aneta Editora
Páginas: 280


Sinopse: Frank Pierce é um paramédico que trabalha durante as altas horas da noite nas ruas de Hell’s Kitchen, um bairro de Nova Iorque, e que divide o trabalho em “Chamadas boas” e “Chamadas más”: por vezes, ele é o Padre Frank, enviado para salvar vítimas de excessos de álcool e drogas, acidentes de automóvel, tiroteios, cortes e ataques de asma, o realizador de milagres de rotina; outras vezes, encontra situações desesperadas onde os seus frenéticos esforços de ressuscitação são quase sempre inúteis e onde as vítimas lhe morrem nos braços.
Agora, como um
padre já sem fé, Pierce afoga-se em culpa e desgosto pelos que não conseguiu salvar, atingindo um estado de completa exaustão emocional e entrando numa espiral de auto-destruição. A mulher deixou-o, começou a beber e, desde que entubou mal Rose, uma rapariga de 18 anos, asmática, que acabou por morrer, esta torna-se num pesadelo vivo, perseguindo-o nas suas noites de insónia pelas ruas, um símbolo de todos os seus erros. Enquanto a vida de Pierce se desmorona inevitavelmente ao mesmo tempo que salva a vida dos outros pela noite dentro, a única moral que consegue retirar é a de que “todos os dias há um Juízo Final…o fim está sempre presente”.

Review: Já li este livro há um bom par de anos. Na altura, a minha “ongoing” lista de livros andava um bocado nas lonas e fui revistar as escassas prateleiras da minha avó em busca de algo bom para ler. Foi aí que descobri este “Por Um Fio” de Joe Connelly, com uma capa catita vermelha com o Nicolas Cage e pensei: “parece-me bem, vamos lá ver o que é isto”. Pois bem, dou graças a Deus pela necessidade de revistar os livros da minha avó, pois a história do paramédico Frank Pierce foi das melhores que li até hoje, sem dúvida.

Connelly (que trabalhou ele próprio como paramédico no St. Clare’s Hospital em Hell’s Kitchen durante 10 anos) traz-nos um retrato algo biográfico do que é estar na linha da frente da emergência médica durante o “graveyard shift” (nome dado ao período das primeiras horas da madrugada), descrevendo, com uma escrita fluida e alucinante que nos deixa completamente agarrados e a chorar por muito mais, a realidade crua e brutal do que acontece enquanto todos dormem confortavelmente nas suas camas. Frank Pierce é o nosso guia por este mundo selvagem e não conseguimos evitar ser arrastados para a sua história, numa mistura de fascínio e horror.

O livro, “Bringing Out the Dead” no original, foi um bestseller imediato após a sua publicação e bastante bem aclamado pela crítica, tendo inclusive baseado mais uma permissa do argumentista Paul Schrader para o filme com o mesmo nome realizado por Martin Scorcese (a quarta colaboração entre o argumentista e o realizador, onde se incluem alguns dos seus melhores filmes: Taxi Driver e Touro Enraivecido), e que conta, obviamente, com Nicolas Cage no papel principal.


Se algum dia pensaram em ser paramédicos, não leiam este livro….ou então não deixem de lê-lo…

Raquel Pereira

[LIVROS] Review - A Estirpe

23 de março de 2010 à(s) 20:53

Autor: Chuck Hogan, Guillermo Del Toro
Título Original: The Strain (2009)
Editora: Suma de letras
Páginas: 560


Sinopse: Um Boeing 777 proveniente de Berlim aterra no aeroporto JFK e, de repente, pára na pista. As janelas estão fechadas. As luzes estão apagadas. Ninguém responde às chamadas da torre de controlo. Nenhum passageiro atende o telemóvel. Parece que o avião deixou de existir… O que os investigadores encontram lá dentro gela-lhes o sangue. O que ao princípio parece apenas um vírus altamente contagioso revela-se uma ameaça aterradora. Os vampiros estão de volta e estão sedentos de sangue. A epidemia vampírica propaga-se a uma velocidade vertiginosa e, ao cabo de poucos dias, invade toda a ilha de Manhattan. Mas isto é apenas o começo. Porque existe um plano sinistro para conquistar rapidamente todo o planeta.




Review: Num mercado cada vez mais saturado com romances sobre vampiros será que existe espaço para mais uma trilogia sobre o assunto? Se “Crepúsculo” é o romance teen dos vampiros e “Sangue Fresco” o romance adulto, então nesse caso “A Estirpe” é uma injecção de adrenalina no meio da casa dos horrores da feira popular.

Guillermo del Toro, a primeira metade desta dupla, é reconhecido como realizador de filmes como “El laberinto del fauno”, “Hellboy” I e II e “The Hobbit” (em fase de pré-produção), trabalhos que já lhe valeram uma série de prémios bem como o título de guru dos efeitos visuais e um dedicado clube de fãs. Chuck Hogan, por outro lado, é um aclamado escritor de ficção, autor de "Prince of Thieves: A Novel", vencedor do prémio “Hammett Prize 2005” e considerado como um livros do ano por Stephen King.

O resultado desta improvável colaboração é uma excelente obra de fantasia urbana e horror, uma leitura rápida e entusiasmante que deixa o leitor à espera dos próximos capítulos. O ponto mais forte do livro reside nas descrições convenientemente detalhadas dos cenários e dos vampiros que ajudam a criar um ambiente assustador e credível para acompanhar o rápido desenvolvimento dos acontecimentos; A presença de gore é uma constante e talvez possa ser demasiado para pessoas demasiado impressionáveis mas é, sem dúvida, fundamental para transmitir o ambiente negro e aura de terror que a história exige e que consegue transmitir com grande mestria. Outro dos pontos fortes é a forma como os vampiros são abordados, uma praga letal de monstros sem piedade, que vivem para passar a sua doença ao próximo; para ser totalmente justo devo destacar que a premissa principal do livro, encarar os vampiros como doença resultado de uma praga de parasitas, não é uma novidade absoluta e existem alguns clichés pelo meio, mas ao incorporar elementos da ciência moderna com componentes mitológicos e do folclore os autores conseguem destacar-se dos “novos vampiros” que enchem as estantes das livrarias.

Claro que não estamos perante o livro perfeito, o seu defeito principal reside no enredo. A história é altamente previsível, simples e bastante “hollywoodesca”, o que acaba por eliminar boa parte do suspense e com ele algum do divertimento. Algumas cenas exigiam um maior desenvolvimento da história e algumas personagens parecem algo vazias e pediam que se perdesse mais algum tempo com elas.

Em suma, “A Estirpe”, é um livro interessante, rápido e cheio de acção mas que, infelizmente, não passa de uma excelente obra de literatura escapista. Agradou-me imenso ler este primeiro capítulo e aguardo com ansiedade os próximos.





Mário Barroso

[LIVROS] Review - Os Pilares da Terra/Mundo Sem Fim

22 de março de 2010 à(s) 19:50

A propósito da referência do meu colega bloguista aos famigerados livros de Ken Follett, Os Pilares da Terra e Mundo Sem Fim (que, confirma-se, foram adquiridos pela módica quantia conjunta de aproximadamente 16 euros, e, digo-vos, são uns belos duns calhamaços), deixo aqui a minha review informativa para todos os que queiram embarcar nesta aventura pelo passado.

À parte a propensão magnífica do escritor inglês para não escrever nada que não ultrapasse as 1000 páginas de letra minúscula, não há dúvida que Follett consegue transportar-nos para a Inglaterra da Idade Média, fazendo-nos vibrar com as descrições da vida da época e com a história das personagens, às quais ficamos inevitavelmente ligados (atenção, tive vontade de esganar alguns deles....). O autor proporciona-nos todos os ingredientes de uma boa novela de época (ainda que claro que misturada com a seriedade histórica e com a qualidade da narrativa): sim, há sangue, há morte, há sexo, há descrições de batalhas, de tortura, de violação e de orgias de flagelação, há intriga e esquemas de maldade. Mas há também a beleza da história e a riqueza das personagens e do cenário, e não podemos deixar de nos sentir fascinados do princípio ao fim.

Título Original: The Pillars of The Earth
Autor: Ken Follett
Ano: 1989
Páginas: 1076

Os Pilares da Terra, o primeiro dos livros que constituem o díptico romance de Follett, foi publicado pela primeira vez em 1989 e é hoje um bestseller mundial. Situado na Inglaterra dos meados do século 12, o livro segue a construção da magnífica catedral da cidade de Kingsbridge e a história das personagens à sua volta.

O livro é-nos apresentado do ponto de vista de várias personagens principais, que se vão cruzando ao longo da história, desde o arquitecto e construtor pobre com um sonho de vida, passando pelo monge que se tornou bispo, até ao nobre sádico e violento em busca de poder.

Não se deixem assustar pelo tamanho; se forem como eu, será a coisa que que menos vos vai preocupar, pois ficarão completamente enredados na história.

Actualmente, a ideia de passar da página escrita à tela já está em concretização. Uma co-produção alemã e canadiana encabeçada pela Tandem Communications e pela Muse Entertainment, em associação com a Ridley Scott's Scott Free Films, pretende levar o épico histórico aos ecrãs de televisão, com estreia prevista para a segunda metade de 2010 e contando com alguns nomes conhecidos da representação, tais como Ian McShane (o fantasma de Scoop de Woody Allen), Donald Sutherland (o pai do Sr. Jack Bauer) e Rufus Sewell (o “mau-da-fita” d’ O Ilusionista).



Título original: World Without End
Autor: Ken Follett
Ano: 2007
Páginas: 1025

Mundo Sem Fim, publicado em 2007, apresenta-nos a sequela de Pilares, situada na mesma cidade ficcional de Kingsbridge, e seguindo as historias dos descendentes de algumas das personagens do primeiro livro dois séculos depois. A trama engloba dois eventos históricos importantes, a Guerra dos 100 Anos, no centro dos conflitos entre França e Inglaterra, e a pandemia da “Morte Negra”, um surto da peste bubónica que atingiu fortemente a Europa entre 1348 e 1350 e que se estima ter aniquilado 30 a 60% da população europeia.

Mais uma vez, a história segue as diferentes perspectivas de quatro personagens - Merthin, Caris, Ralph e Gwenda - que em crianças testemunham uma luta entre três desconhecidos por causa de uma misteriosa carta que contém um segredo de proporções políticas impensáveis, um acontecimento que ditará o rumo das suas vidas daí para a frente.

O livro segue a tendência do anterior para o tamanho dantesco, mas a história continua a agarrar o leitor ao jeito próprio de Follett. Aconselho a não lerem os livros seguidos, porque apesar da ligação entre as duas histórias, o fio condutor não é perdido de forma alguma e, por muito boa que estas sejam, ler 2000 páginas dos mesmos cenários de uma enfiada pode tornar-se um empreendimento algo cansativo.


De qualquer forma, é uma experiência literária que aconselho todos a terem. Mesmo.


Raquel Pereira

[MÚSICA] Artista da Semana – The White Stripes

à(s) 12:09
Para esta semana escolhi a dupla americana White Stripes, constituída por Jack (Voz, guitarra e piano) e Meg White (bateria, e ocasionalmente voz) formada em 1997 em Detroit. O estilo musical dos White Stripes tem as suas raízes nos blues e no punk e expressa-se usualmente através de composições simples e sinceras mas muito poderosas onde se incorporam ainda influências de rock, rockabilly, country e folk. Entre as suas maiores influências a banda elege Bob Dylan, The Rolling Stones, Loretta Lynn, Led Zepellin, Son Housem Blind Willie McTell, The Sonics, The Stooges, entre outros.

Nestes 13 anos de vida a banda deu ao mundo 6 álbuns de originais, The White Stripes (1999), De Stijl (2000), White Blood Cells (2001), Elephant (2003), Get Behind Me Satan (2005) e Icky Thump (2007). A sua originalidade já lhes valeu inúmeros prémios, incluindo 5 Grammy (3 para melhor álbum alternativo), 1 BRIT Award, 1 NME award, 1 Meteor Music Award, 1 MTV Europe Music Award e 5 MTV Video Music Award. Garantido ainda o 17º lugar no Top dos 100 melhores guitarristas de todos os tempos (Revista Rolling Stone) a Jack White.

Recentemente lançaram para o mercado “Under Great White Northern Lights” (CD/DVD), um documentário sobre a tour no Canadá no Versão de 2007, que contem algumas performances as vivo bem como material off-stage. Quase no fim do filme Jack White tem uma frase que define a banda quase na perfeição e que escolhi para terminar este pequeno texto: «... the album that just came out the other day, our new album, and they (the critics) just said “it's a great album but how long can this guys keep this up?”. People were saying that on our first album, this is our sixth album. It's so funny 'cause people see the constriction but they also think “there's no way this is gonna last, this obviously has a boiling point, has a cut-off point” so it's kinda funny when we keep defying them. If o listen to a White Stripes record, there's a lot of different things happening, there’s a lot of different types of songs and personalities happening, I think your brain starts to forget there's only 2 people doing it.» («… o álbum que acabou de sair no outro dia, o nosso novo álbum, e disseram (os críticos) “é um grande álbum mas por quanto tempo vão eles conseguir manter este nível?”. As pessoas diziam isso no nosso primeiro álbum, este é o sexto. É engraçado porque as pessoas conseguem ver a constrição mas pensam “não é possível que isto continue muito mais tempo, isto tem obviamente um ponto de ebulição, um ponto de ruptura”, portanto é engraçado quando continuamos a desafiar essas pessoas. Se ouvir um álbum dos White Stripes há muita coisa a acontecer, há muitos tipos de canções e personalidades a acontecerem, penso que o cérebro começa a esquecer-se que são apenas 2 pessoas a fazer aquilo»).


Mário Barroso



 


[LIVROS] Livros de Importação na Fnac

17 de março de 2010 à(s) 21:25

Há cerca de 3 meses atrás recebi um email que me irritou bastante sobre alguém que se sentia extraordinariamente ofendido porque foi a uma loja da fnac para comprar um DVD descobrindo mais tarde que o mesmo DVD custava menos 10€ numa outra loja qualquer. A pessoa em questão, de tão indignada que estava, queria fazer um movimento qualquer para que durante 1 semana ninguém comprasse nada aos porcos capitalistas franceses que tanto têm feito para arruinar as nossas vidas (não foi escrito assim mas o sentimento de revolta atingia níveis bastante elevados). Esta pessoa é claramente fraquinha de cabeça ou então é a primeira vez que faz compras na vida, se fosse minimamente inteligente verificava os preços em várias lojas antes de se atirar à primeira coisa que vê pela frente. Para encerrar este assunto, que apesar de ser o catalisador deste post não é o centro do mesmo, devo apenas dizer que adquiri na tal loja o DVD edição coleccionador de Sin City – Cidade do Pecado pela módica quantia de 5 euros, enquanto nas outras lojas teria pago algures entre 15 e 20 euros.

Com este assunto arrumado vamos ao assunto principal, livros de importação vendidos na fnac, nomeadamente os livros escritos em inglês (vou deixar de fora os livros em francês e castelhano pois não sendo consumidor dos mesmos não posso comentar). A primeira vez que eu me deparei com o preço dos livros no Reino Unido fiquei no mínimo boquiaberto, os paperbacks das novidades custavam cerca de 6 euros e os livros “clássicos” podiam custar algo como 3 euros. É então com muito agrado que venho a assistir a ascensão da importação de livros por parte da FNAC. Apesar dos livros que podemos comprar nas lojas não sejam, na sua maioria, tão baratos como os comprados pela internet são ainda extraordinariamente baratos. Passo a um exemplo muito concreto, se eu quiser ler “Crime e Castigo” de Fyodor Dostoevsky em português teria de comprar os 2 volumes (é possível que exista uma versão apenas num volume mas não consegui encontrar na fnac) que custam 23 euros cada um, teria de pagar portanto 46 euros por um livro; para o mesmo livro, em inglês, dei a quantia de 2.75 euros, ou seja 16 vezes menos, a única diferença, para além da língua, é ter capa mole (paperback). Isto não é só válido para livros clássicos, “Pilares da Terra” ou “Mundo sem Fim” de Ken Follet ambos custam 7 euros na versão inglesa paperback enquanto em português ambos estão separados em 2 volumes cujo preço, por volume, é de cerca de 20 euros.

A selecção é bastante variada, desde os clássicos da literatura até livros de autores mais recentes dentro de quase todos os estilos literários. O meu destaque pessoal vai, sem dúvida, para os autores mais clássicos, que se dividem maioritariamente em 2 colecções: “Wordsworth Classics” (2.75€ cada) e que conta com autores como Fyodor Dostoevsky, James Joyce, Bram Stoker, Jane Austen, etc e “Penguin Popular Classics” (3.75€) e que conta com uma quantidade gigantesca de nomes. Ainda de referir que os fãs de ficção-cientifica foram brindados com um número considerável de paperbacks de livros não traduzidos para português ou livros com edições antigas que são extremamente difíceis de conseguir, e isto a um preço muito simpático (por exemplo “Fundação” de Issac Asimov a 10€).

Em suma, existem paperbacks baratos e outros mais caros (13 a 20 euros) mas existem também os extremamente baratos, e alguns deles tem a vantagem de conterem um texto original e não uma tradução (para quem não tem noção da diferença que a tradução pode fazer aconselho a lerem um livro em português e depois na língua original para perceberem as diferenças). Claro que existem desvantagens, a primeira e mais óbvia é que o texto está em inglês e como tal estamos a “abandonar” o português, não só não ajuda no desenvolvimento da língua mãe mas trata-se de uma limitação para quem não tem um grande domínio da língua; alem disso os paperbacks, são relativamente frágeis e recomenda-se algum cuidado, especialmente após leituras repetidas. É verdade que estes livros nada contribuem para que o povo português domine melhor a sua língua, mas não se lhes pode tirar o mérito de abrir muitas portas numa altura de pouco dinheiro e de livros (absurdamente) caros.

Mário Barroso

[CINEMA] Review - Shutter Island

à(s) 10:51
Realizador: Martin Scorcese
Argumento: Laeta Kalogridis (argumento), Dennis Lehane (livro)
Com: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams
Duração: 138 minutos

Já algum tempo que Martin Scorcese prova a sua mestria por detrás das câmaras. Depois do último, The Departed – Entre Inimigos, ter recebido (entre outros) o Óscar de Melhor Filme em 2007, chega-nos agora Shutter Island, terceira adaptação do romance homónimo do escritor americano Dennis Lehane (refiro-me a Mystic River, em 2003, e Gone Baby Gone, em 2007) e quarta colaboração do actor Leonardo Dicaprio com o realizador.

O filme conta-nos a história do US Marshall Edward “Teddy” Daniels, de visita à ilha de Shutter e ao hospital psiquiátrico para doentes criminosos de Ashcliffe para investigar o desaparecimento aparentemente impossível de uma reclusa, um homem que é igualmente atormentado pelo passado, quer pela experiência do Holocausto quer pela morte da mulher.

Filmado ao estilo dos clássicos da série B e ao som de uma banda sonora perfeita para o seu papel, Scorcese oferece-nos o thriller ideal de suspense: a fusão da realidade e do imaginário onde nada é o que parece, segredos macabros escondidos e o perigo à espreita, a luta desesperada de um homem para conservar a sua sanidade mental; tudo isto ao som das batidas fortes da orquestra, é a receita ideal para não deixar ninguém indiferente ao fim de pouco mais de 2 horas de filme. Especialmente para quem não leu o livro (e mesmo para quem leu, falando eu por experiência própria), é ver-nos colados ao ecrã com o coração aos pulos, ou meio repugnados meio fascinados pelas incursões (bastante gráficas) à mente perturbada de um ser humano e à própria realidade nua e crua da medicina psiquiátrica da altura.

Um filme absolutamente a ver.

 Raquel Pereira

[MÚSICA] Artista da Semana - Florence and the Machine

16 de março de 2010 à(s) 21:09

Inauguro a secção artista da semana com a senhora que hoje (16/03/10) se apresenta ao vivo na Aula Magna em Lisboa.

Florence and the Machine é um projecto britânico liderado por Florence Welsh em colaboração com os músicos Robert Ackroyd, Christopher Lloyd Hayden, Isabella Summers e Tom Monger. As sonoridades são maioritariamente indie-pop mas integram elementos de estilos muito diversos como rock alternativo, electrónica e folk, conseguindo assim algum destaque no mercado hiper saturado do indie-pop inglês.

O grupo conta apenas com um álbum, Lungs, lançado em 2009 e que foi substancialmente bem recebido pela crítica (7.2 na pitchfork e 4.5 estrelas na Rolling Stone) tendo recebido o “MasterCard British Album” nos BRIT awards 2010.

Melhor do que falar sobre o assunto é mesmo mostrar um bocadinho da universo musical dos Florence e por isso ficam aqui dois videoclips e os links para a página oficial e myspace.


[CINEMA] Review - Alice no País das Maravilhas

à(s) 21:07

Realizador: Tim Burton
Argumento: Linda Woolverton (argumento), Lewis Carroll (livros)
Com: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway
Duração: 108 minutos

Review (SPOILERS): Alice no País das maravilhas é um filme mais ou menos, em que tudo é absolutamente mais ou menos, e que no fim não deixa qualquer marca a quem passou quase 2 horas com uns óculos estranhos na cara. A premissa até era interessante, juntar Tim Burton e a dupla do costume (Deep e Bonham Carter) com o mundo fantástico e absurdo do conto de Lewis Carroll, com muito CGI e 3D à mistura. O resultado final dificilmente poderia estar mais longe das minhas expectativas.

O filme tem, para mim, apenas 1 aspecto positivo, é visualmente interessante. Como já era de esperar Tim Burton deu uma roupagem nova tanto às personagens como aos cenários, ainda que não estejamos perante uma grande inovação por parte de Burton. Trata-se unicamente da aplicação do estilo distintivo do realizador à história, o que não é mau mas que poderia ser melhor. Ainda relativamente ao aspecto visual é de destacar a utilização do 3D, que neste caso não se destaca pela positiva, isto porque muitas vezes nem se dá pelos efeitos 3D e no geral nunca parece extraordinariamente necessário, há sempre a sensação que a experiência do filme seria a mesma caso fosse a 2D (e deve salientar-se que seria uma experiência substancialmente mais barata para quem vai ao cinema).
Os actores não estão mal nos seus papéis mas nenhum deles se destaca de forma notória. Mia Wasikowska (Alice), uma quase estreante pelos lados de Holywood, é demasiado apática e não consegue suportar o “trabalho” de protagonista, as razões porque a escolheram para personagem principal não são visíveis . Johhny Depp (Chapeleiro Maluco) desaponta maioritariamente por não aproveitar para se comportar de forma verdadeiramente alucinada e parece sempre andar no limite entre o maluco e o maníaco-depressivo, esperava-se bastante mais neste papel. Helena Bonham Carter é quem mais brilha, cumprindo com destreza o papel de Rainha de Copas, ao contrário de Anne Hathway (Rainha Branca) que consegue ainda ser mais apagada do que Alice, o que se torna especialmente irritante quando a sua personagem é descrita como o último pilar do bem e não como uma senhora que tem sempre os braços em posições estranhas.

Mas sem qualquer espécie de dúvida que a pior parte do filme é o argumento, ao juntarem elementos de 2 contos de Lewis Carroll, conseguiram verdadeiramente fazer uma salada de frutas de personagens e eventos desconexos, em que muitos deles são completamente acessórios e desnecessários. Na primeira parte do filme interroga-se se a Alice que está agora no País das Maravilhas é a mesma que lá esteve antes, no entanto a dúvida não parece incomodar muito as personagens que pelo sim pelo não aceitam uma Alice qualquer para concretizar uma profecia ancestral. O que também não se percebe muito bem é porque é que a Rainha de Copas, que é má como as cobras, deixou todos os amiguinhos da Alice em paz em sossego durante 13 anos só se preocupando em tornar-lhes a vida num inferno quando estes vão buscar a Alice ao mundo real. Quando finalmente se percebe que a Alice é na verdade “a” Alice (e se depois de mais de 1 hora de filme esta Alice fosse a Alice errada as pessoas ficariam provavelmente muito chateadas por estar a ver a Alice no País das Maravilhas sem a Alice), esta pode agora concretizar a profecia de matar o dragão, que, a bem da verdade, nunca teria sido um problema se não tivessem ido buscar Alice à festa de noivado. O filme acaba, como todos os filmes da Disney, com uma bonita sucessão de clichés, Alice mata o dragão, volta para o mundo real, dá uma lição de moral a todos os membros da família e passa a dedicar-se ao seu sonho de explorar o mundo num barco seguindo as pegadas do pai.

Em suma o filme não é mau, mas também não é bom, é mais ou menos em tudo e mais alguma coisa. Tem o benefício de ser relativamente acelerado e por isso as quase 2 horas de filme não custam muito a passar. É um filme “pipoca” mais típico dos meses de verão, nada mais, nada menos.


Mário Barroso

Hello Word

à(s) 20:54
"Bolas de Naftalina" é só mais um blog na internet. O único objectivo de momento é que o criador desta “coisa” exercite uma capacidade que muitas vezes se esquece de fazer, escrever.

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EDIT: Afinal já são 2 autores... e a nova autora chega a saber como se usa um ponto-e-vírgula


Mário Barroso